Passar as fronteiras de Mato Grosso do Sul é entrar em um território onde a identidade foi moldada ao ritmo de passos firmes, cascos de cavalo e misturas de sotaques. Por isso, a cultura sul-mato-grossense possui raízes profundas que vão muito além de uma simples divisão geográfica. Nossa identidade reflete uma rica miscigenação de influências indígenas, europeias, latinas e africanas.
Cada grupo trouxe suas próprias tradições e práticas que, ao longo do tempo, se fundiram em uma identidade regional única, caracterizada pela diversidade e pela convivência harmoniosa. No fim das contas, a história de Mato Grosso do Sul se assemelha a uma boa roda de tereré: uma combinação de elementos diferentes que, juntos, criam algo totalmente único e refrescante.
Se você quer entender a fundo como os biomas do Cerrado e do Pantanal se entrelaçam com a herança de tantos povos, confira a nossa trilha pelas origens, mistérios e orgulhos do nosso estado.
As origens da cultura sul-mato-grossense, uma tapeçaria de povos
Para compreender a formação social do estado, é preciso primeiro olhar para os seus povos originários. As etnias indígenas desempenharam — e continuam desempenhando — um papel crucial na construção do nosso rastro cultural.
A herança indígena
Os povos Guarani, Terena e Kadiwéu (conhecidos historicamente pela destreza como “índios cavaleiros”) foram os primeiros habitantes deste vasto território. Consequentemente, muito do nosso vocabulário cotidiano, do conhecimento profundo sobre plantas medicinais e da culinária nativa vem diretamente dessas comunidades. O respeito à terra e a forte conexão com a fauna local são legados vivos que moldam a nossa visão de mundo.
A chegada dos colonizadores e as fronteiras vivas
A partir do século 17, exploradores e missionários jesuítas, tanto portugueses quanto espanhóis, começaram a rasgar a região. Essa aproximação geográfica com a antiga Linha de Tordesilhas gerou séculos de trocas intensas. Como resultado direto dessa proximidade com o Paraguai e a Bolívia, a nossa cultura ganhou contornos latinos inestimáveis, visíveis na arquitetura de cidades históricas, no idioma fronteiriço e nos costumes rurais cotidianos.
A presença africana e comunidades quilombolas
Além disso, a presença africana é um componente essencial e, muitas vezes, silencioso na formação do estado. Trazidos para o trabalho em fazendas e na antiga extração nos ervais de erva-mate, os afrodescendentes deixaram marcas profundas na religiosidade, na música e na culinária local.
- Curiosidade do Mato: o estado abriga comunidades quilombolas históricas de grande relevância. Um exemplo marcante é a comunidade Furnas do Dionísio, localizada em Jaraguari, que preserva até hoje técnicas ancestrais de cultivo da terra, produção artesanal de rapadura e festejos tradicionais embalados pelo ritmo do batuque.
Elementos culturais presentes no cotidiano
A cultura sul-mato-grossense está profundamente enraizada no cotidiano de seus habitantes, manifestando-se de diversas formas em nossa rotina. A culinária típica é um dos elementos mais marcantes, funcionando como um verdadeiro espelho da nossa miscigenação.
Dificilmente você encontrará outro lugar no mundo onde um prato de origem estritamente asiática se tornou patrimônio cultural imaterial. O sobá, uma adaptação local do macarrão tradicional trazido pelos imigrantes da ilha de Okinawa no início do século 20, foi abraçado de tal forma que se transformou na comida oficial da Feira Central da capital. Ele ganhou o toque sul-mato-grossense com a inclusão da carne de gado (nossa principal riqueza econômica) e muito cheiro-verde.
- A chipa: o famoso biscoito de polvilho e queijo em formato de ferradura é uma herança direta da culinária paraguaia, mostrando a forte interação cultural com os países vizinhos logo nas primeiras horas do dia, acompanhando o café da manhã dos moradores.
A preservação dessas práticas culinárias é essencial para a continuidade da identidade sul-mato-grossense, garantindo que futuras gerações possam desfrutar e se orgulhar desse legado único.
O artesanato que molda a nossa história
Se a culinária sul-mato-grossense alimenta o corpo, o artesanato local é o que preserva a memória do nosso povo. Nas feiras, lojas e cooperativas de Mato Grosso do Sul, a arte feita à mão ganha o status de documento histórico.
Dois grandes exemplos dessa expressão são valorizados internacionalmente:
- A cerâmica Terena: produzida principalmente pelas mulheres das comunidades, destaca-se por suas pinturas geométricas feitas com pigmentos naturais em tons de argila vermelha e branca.
- A sofisticada arte Kadiwéu: famosa por seus padrões simétricos perfeitos aplicados tanto em peças de barro quanto em tecidos. Suas formas geométricas abstratas são tão complexas que encantam antropólogos e designers do mundo inteiro.
Esses produtos artesanais são repletos de significado porque carregam técnicas passadas de geração em geração. Através de um forte senso de comunidade e respeito pelas tradições, os artesãos locais mantêm viva a sua ancestralidade. Assim, ao garantirem o sustento de muitas famílias, essas peças permitem que tanto moradores quanto turistas busquem levar consigo um pedaço real da nossa rica história.
Influências na arte e na música: o som da viola e do acordeon
Além da gastronomia e do artesanato, as danças folclóricas e as festividades tradicionais — como as festas juninas e as danças de quadrilha — funcionam como um elo de transmissão cultural que une comunidades inteiras e perpetua nossas tradições. No entanto, é na sonoridade que Mato Grosso do Sul encontra sua maior tradução. A musicalidade do estado tem o poder de transportar o ouvinte diretamente para o infinito do horizonte pantaneiro, sendo uma música rural por essência, mas urbana por sua sofisticação.
Nossa identidade sonora se divide em vertentes ricas e muito bem marcadas:
- O Sertanejo e o Folk de Fronteira: o estado é um dos grandes berços do sertanejo nacional, revelando duplas que conquistaram o país. Porém, paralelamente, desenvolveu-se por aqui uma vertente poética e única no Brasil. Nomes como Almir Sater, Paulo Simões e Geraldo Roca criaram uma sonoridade própria ao misturarem a música de raiz caipira com a folk music sul-americana e a polca paraguaia. Foi dessa genial fusão bucólica que nasceu o estilo que embala a vida no campo e que imortalizou clássicos da nossa terra, como o hino “Trem do Pantanal”.
- O Chamamé: embora tenha nascido na província de Corrientes, na Argentina, o chamamé encontrou aqui a sua segunda pátria. Tocado com maestria pelo acordeon e pelo violão de sete cordas, ele foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Estado, embalando as comitivas de peões e as festas de laço comprido.
- A Viola de Cocho: instrumento artesanal esculpido em um bloco de madeira inteiriço (geralmente ximbuva ou sarã), a viola de cocho é o coração pulsante do Cururu e do Siriri, manifestações folclóricas riquíssimas da nossa região pantaneira.
Histórias, lendas regionais e mitos do Pantanal
As noites em torno da fogueira ou nas varandas das fazendas de gado propiciaram o nascimento de um folclore rico, onde o medo, o encantamento e o respeito pela natureza caminham lado a lado. As lendas indígenas e contos populares desempenham um papel fundamental na nossa identidade.
Mitos e guardiões da natureza
Uma das figuras mais célebres é a lenda do Anhanguera, um espírito protetor dos rios e florestas que aparece para proteger a natureza dos perigos. Da mesma forma, histórias passadas de geração em geração, como a do Boitatá (a serpente de fogo que protege as matas contra incêndios criminosos), são exemplos clássicos. Essas narrativas estão profundamente enraizadas no imaginário popular, reforçando a importância do respeito ao meio ambiente.
O mito do ‘Minhocão do Pantanal’
Diferente das lendas trazidas de outras regiões do Brasil, o ecossistema pantaneiro gerou suas próprias criaturas. O Minhocão do Pantanal é descrito pelos antigos pescadores e ribeirinhos como uma serpente gigantesca, de proporções monstruosas, que vive no fundo lamacento dos rios. Segundo o mito, a criatura é capaz de derrubar barcos, escavar canais subterrâneos que mudam o curso das águas e desmoronar barrancos inteiros durante suas raras aparições.
Além dos mitos, a história do estado é marcada por personagens icônicos e líderes históricos, como o líder indígena Marçal de Souza, cuja voz ecoa até hoje na luta pelos direitos dos povos originários, sendo relembrado em manifestações culturais, na literatura, nas artes visuais e em projetos educacionais que asseguram que a riqueza do nosso povo seja apreciada pelas futuras gerações.
Preservar o nosso rastro
Em resumo, a cultura de Mato Grosso do Sul é um ecossistema dinâmico. Ao mesmo tempo em que preservamos o hábito de passar a cuia de tereré de mão em mão, nos orgulhamos de ver nossa arte, nossa música e nossa culinária ganhando o mundo. Entender essas origens é fundamental para valorizar o solo que pisamos e garantir que o nosso rastro cultural continue vivo, fortalecendo o senso de pertencimento e continuidade.