Pedalar em uma trilha de terra é uma experiência completamente diferente de andar de bicicleta no asfalto. O terreno muda a cada curva, com cascalho, raízes, barro, pedras soltas e descidas inesperadas fazem parte do jogo. É exatamente essa imprevisibilidade que torna o mountain bike uma das atividades ao ar livre que mais cresce no Brasil.
E Mato Grosso do Sul, com sua rede de trilhas em meio ao Cerrado, ao Pantanal e à Serra da Bodoquena, é um dos estados com maior potencial para o cicloturismo e o MTB no país. Só em Bonito, existem mais de 30 trilhas mapeadas, com opções para todos os níveis, incluindo paradas para banho em rios cristalinos ao longo do percurso.
Mas antes de colocar os pés nos pedais em qualquer trilha, é preciso estar preparado. Neste guia, você vai encontrar os equipamentos essenciais, as dicas de segurança que fazem diferença no off-road e os melhores destinos de MTB no MS.
Mountain bike ou bike de passeio: qual é a diferença?
Antes de falar em equipamentos, uma dúvida comum: qualquer bicicleta serve para trilha?
A resposta curta é: depende da trilha. Para caminhos de terra compacta e terreno suave, uma bike híbrida ou urbana pode funcionar. Mas para trilhas com obstáculos reais, como pedras, raízes, erosões, descidas técnicas, a mountain bike (MTB) é a escolha certa.
As principais diferenças:
| Característica | Mountain bike | Bike de passeio |
|---|---|---|
| Pneus | Largos com cravos para aderência | Lisos ou semi-lisos |
| Suspensão | Dianteira (hardtail) ou dupla (full suspension) | Geralmente sem suspensão |
| Freios | A disco (maior potência e controle) | V-brake ou disco básico |
| Câmbio | Múltiplas marchas para subidas e descidas | Poucas marchas |
| Quadro | Reforçado para impactos | Mais leve, menos resistente |
Equipamentos essenciais para bike na trilha
Capacete — obrigatório, sem exceção
Em trilhas de off-road, o capacete não é opcional. Em trilhas com pedras soltas, raízes, ladeiras e descidas técnicas, qualquer queda pode ser crítica, e é o capacete que absorve o impacto, reduzindo drasticamente o risco de traumatismo craniano.
Para MTB, o capacete ideal tem ventilação eficiente, ajuste cranial confortável e certificação de segurança (procure o selo CPSC ou EN1078 na etiqueta). Muitos modelos atuais também contam com a tecnologia MIPS, que protege o cérebro contra impactos rotacionais — um diferencial importante para quem pedala em trilhas com risco de queda lateral.
Para descidas mais técnicas e trilhas de maior exposição, considere um capacete full face (que cobre o queixo), muito mais protetor em situações de queda frontal.
Luvas
As luvas são subestimadas por muitos iniciantes — até a primeira queda. Em qualquer queda de bike, o instinto é levar as mãos ao solo. As luvas protegem as mãos de escoriações, bolhas e ajudam no controle da bike mesmo com suor ou chuva. Prefira versões com reforço nas palmas e boa ventilação, ideais para longos trajetos sob sol forte.
No contexto das trilhas de MS, com calor intenso boa parte do ano, luvas com boa respirabilidade são essenciais.
Óculos de proteção
Os óculos cumprem função essencial: proteger os olhos contra insetos, poeira, galhos e raios UV. Modelos com lentes fotocromáticas se adaptam à variação de luz e são ótimos para trilhas que alternam sombra e sol, o que acontece constantemente nas trilhas em mata fechada da Serra da Bodoquena e do Cerrado sul-mato-grossense.
Calçado adequado
Para quem usa pedais comuns, qualquer tênis fechado e com boa aderência funciona no começo. Para pedais de encaixe (clipless), a sapatilha específica de MTB é o ideal, pois ela trava no pedal e melhora muito a eficiência da pedalada. A vantagem de usar sapatilha de MTB é que a sola é rígida o suficiente para pedaladas eficientes, mas tem borracha antiderrapante que permite andar normalmente quando você desce da bike.
Roupas para MTB
As roupas mais recomendadas para MTB são camisetas de manga longa e calças compridas, para proteger contra insetos, detritos e sol excessivo, especialmente relevante nas trilhas de MS, onde a vegetação do Cerrado e das matas ciliares pode arranhar e onde o sol de Campo Grande é bastante intenso.
Aposte em tecidos dry-fit (poliéster ou elastano) que gerenciam o suor e secam rápido. Shorts e bermudas específicos de MTB têm forro acolchoado interno que faz uma grande diferença no conforto em pedaladas mais longas.
Kit de ferramentas e reparo
Quem pedala em trilha precisa saber resolver um problema básico sozinho. O kit mínimo inclui:
- Câmara reserva (do tamanho certo para seus pneus)
- Remendo e cola para furos
- Bomba de ar portátil ou CO₂
- Multitool (chave allen com várias medidas)
- Corrente extra ou elo de emenda
Sem esses itens, um furo no meio de uma trilha remota pode transformar a aventura em uma caminhada longa de volta.
Hidratação
Em trilhas, especialmente no clima quente de MS, a desidratação é um risco real. Carregue pelo menos 1 litro de água por hora de pedalada em trilhas expostas ao sol. As opções mais práticas são:
- Garrafa no suporte do quadro — acessível rapidamente sem parar
- Mochila de hidratação (CamelBak ou similar) — permite beber sem tirar as mãos do guidão, ideal para trilhas mais técnicas
Beba regularmente, sem esperar a sede. Quando a sede chega, você já está desidratado.
Iluminação
Para quem pedala cedo ou no final do dia — horários favoritos no MS pelo calor —, luzes dianteira e traseira são indispensáveis. A luz dianteira ilumina o trajeto; a traseira garante visibilidade para quem está atrás. Prefira modelos recarregáveis via USB, que eliminam a dependência de pilhas.
Dicas de segurança para bike na trilha
A posição de ataque: postura correta no off-road
A postura na bike de trilha é diferente da estrada. A postura “deitado no guidão” da estrada é receita para desastre na trilha. Na trilha, você precisa estar em “posição de ataque”: joelhos e cotovelos levemente flexionados e fora do quadro da bike, sempre pronto para o que vier.
Essa posição baixa o centro de gravidade, melhora o equilíbrio e permite que o corpo absorva os impactos do terreno de forma mais eficiente.
Avise alguém e leve rota planejada
Sempre compartilhe a rota com alguém de confiança antes de partir. Então, mande o percurso e a previsão de volta, e combinem um horário para contato. Em trilhas remotas no Pantanal ou no Cerrado, isso pode fazer toda a diferença em caso de acidente ou problema mecânico.
Inclusive na nossa aba “destinos“, você pode mapear sua trilha junto a outros ciclistas e aproveitar para planejar o percurso com antecedência.
Vá com alguém mais experiente
Sempre que possível, pedalar acompanhado de alguém mais experiente. O aprendizado visual e as dicas na hora são incomparáveis.
Além disso, em caso de queda ou problema mecânico, ter um parceiro de trilha é fundamental para a segurança.
Respeite seu nível
Comece em trilhas classificadas como fáceis ou moderadas e evolua gradualmente. Trilhas que passam por terrenos com muito cascalho, erosões profundas ou descidas técnicas exigem habilidades de controle que se desenvolvem com o tempo. Não existe atalho — o progresso no MTB é incremental.
Manutenção antes de sair
Antes de qualquer saída, faça a revisão básica da bike:
- Freios funcionando com firmeza (aperte a alavanca — o guidão não deve tocar o punho)
- Pneus calibrados (entre 25 e 35 PSI para trilha; menos pressão = mais aderência, mas mais risco de furo)
- Corrente lubrificada
- Parafusos do guidão e do selim apertados
Onde pedalar de MTB em Mato Grosso do Sul
MS tem uma rede crescente de trilhas para mountain bike, com destinos que combinam natureza preservada, aventura e infraestrutura para ciclistas.
Bonito — o destino mais completo para MTB no estado
Bonito tem uma operadora de cicloturismo com mais de 30 trilhas mapeadas e classificadas por nível de dificuldade. As trilhas de Bonito têm um diferencial especial: incluem paradas para banho em rios de águas transparentes e cachoeiras ao longo do percurso — pedalar e depois mergulhar no Rio Formoso é uma combinação difícil de superar.
Os roteiros variam de trilhas próximas à cidade (ótimas para iniciantes) até percursos com subidas em cascalho, descidas técnicas e passagens por matas fechadas para níveis mais avançados. Destaque para as trilhas com acesso ao Rio Mimoso e ao Hotel Fazenda Araras às margens do Rio Formoso.
Serra da Bodoquena — trilhas com elevação e paisagem
A topografia acidentada da Serra da Bodoquena, com morros e vales, cria trilhas com ganho de elevação real, muito diferentes das trilhas planas do Pantanal. A região tem trilhas circulares em estradas entre fazendas, com mata fechada, e percursos de até 40 km com mais de 700 metros de elevação acumulada — desafiadores e espetaculares.
Campo Grande — pedalar sem sair da capital
A cidade tem uma rede de trilhas de MTB acessíveis para quem quer praticar durante a semana. A região da Cachoeira do Inferninho, nas cercanias da capital, é ponto de encontro frequente de ciclistas locais, com trilha de fácil acesso a paisagem de cachoeiras e área para banho no final. Há também percursos na estrada velha para Terenos e trilhas próximas ao Aeroporto Internacional, com cerca de 35 km de extensão entre asfalto e terra, indicados para níveis intermediários.
Planeje sua pedalada pelo Aquele Mato
Se você quer combinar mountain bike com ecoturismo em MS, o Aquele Mato tem destinos verificados nas regiões com as melhores trilhas do estado.
Monte seu roteiro aqui: https://aquelemato.org/destinos/