Pra começar, todo mundo percebe a influência da imigração japonesa em Mato Grosso do Sul, né?
Quem anda pela Feira Central de Campo Grande e para diante de uma tigela de sobá fumegante, ou quem ouve o ronco dos tambores taiko numa festa de rua, talvez não perceba de imediato que está diante de uma das histórias de imigração mais fascinantes do Brasil. A presença japonesa em Mato Grosso do Sul não é apenas visível — ela é fundadora. Está na gastronomia, nos mercados, nas artes, nas escolas e no jeito de ser da capital sul-mato-grossense.
Campo Grande abriga a terceira maior colônia de descendentes japoneses do Brasil — e a segunda maior colônia de okinawanos fora do Japão. Essa história começa há mais de um século, com um navio, uma ferrovia e a coragem de famílias que cruzaram o oceano em busca de uma vida melhor.
Por que os japoneses vieram ao Brasil
Para entender a imigração japonesa em MS, é preciso entender o contexto que a tornou possível — e necessária para os dois lados.
No início do século 20, o Japão vivia um momento de superpopulação e transformação acelerada. A Restauração Meiji, iniciada em 1868, havia modernizado o país de forma intensa, mas o crescimento demográfico foi mais rápido do que a economia conseguia absorver. Com excesso de mão de obra no campo e poucas oportunidades nas cidades, o governo japonês passou a incentivar ativamente a emigração de trabalhadores para outros países.
Do outro lado do oceano, o Brasil vivia a expansão das lavouras de café no interior de São Paulo e precisava urgentemente de trabalhadores para substituir a mão de obra escravizada, recém-abolida. O encontro dessas duas necessidades deu origem a um dos maiores movimentos migratórios da história brasileira.
Em 1908, os dois governos formalizaram um acordo imigratório. No mesmo ano, o primeiro navio de imigrantes japoneses partiu rumo ao Brasil.

O Kasato Maru e o início de tudo
Em 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos carregando 781 imigrantes japoneses — a maioria de trabalhadores pobres das ilhas de Okinawa, Kagoshima e outras regiões rurais do Japão. Era o início oficial de uma história que completou 117 anos em 2025.
Dos 781 passageiros, cerca de 26 famílias se direcionaram para o que hoje é Mato Grosso do Sul, atraídas pelas terras férteis e pouco exploradas da região. A data — 18 de junho — é hoje o Dia Nacional da Imigração Japonesa no Brasil, celebrado anualmente em homenagem a essa chegada.
Nos dez anos seguintes, outros navios trouxeram mais imigrantes. Entre 1918 e 1940, estima-se que aproximadamente 160 mil japoneses desembarcaram no Brasil, distribuindo-se por diferentes estados em busca de oportunidades.
O caminho até Campo Grande: a ferrovia que mudou tudo
A chegada dos japoneses ao que hoje é Mato Grosso do Sul não foi planejada — foi, em grande parte, acidental e determinada por uma obra de infraestrutura.
Muitas famílias japonesas que haviam se estabelecido nas fazendas de café em São Paulo e Minas Gerais logo se desiludiram com as condições de trabalho — salários baixos, jornadas exaustivas e promessas não cumpridas. Ao chegarem à capital paulista em busca de alternativas, descobriram a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), que ligaria Bauru, em São Paulo, a Corumbá, no Mato Grosso.
Em 1909, um grupo de 75 imigrantes — a maioria de Okinawa — embarcou de Santos em um cargueiro fretado pela construtora da ferrovia. Viajaram pelo estuário do Rio da Prata até Porto Esperança, na base das obras, já em território mato-grossense.
A ferrovia, porém, era uma obra brutal. Os trabalhadores enfrentaram calor intenso, surtos de malária, ataques de insetos e condições precárias de alimentação e abrigo. Muitos desistiram antes de terminar o trabalho. Quando as obras da ferrovia chegaram a Campo Grande, em 1914, boa parte desses trabalhadores simplesmente ficou — e encontrou na cidade uma oportunidade inesperada.
A Mata do Segredo: onde tudo começou em Campo Grande
Ao chegarem a Campo Grande, os imigrantes japoneses se depararam com uma cidade pequena, com infraestrutura ainda precária e um problema sério: faltavam hortaliças e alimentos frescos para a população.
Foi nesse vácuo que a comunidade japonesa encontrou seu espaço. As famílias se instalaram principalmente na região da Mata do Segredo e da Chacrinha (atual bairro Cabreúva) — áreas próximas a córregos, que permitiam irrigação e facilidade de acesso à água para as plantações.
Eram terras devolutas e férteis, e os japoneses as cultivaram com técnicas trazidas do Japão. A produção de hortifrutigranjeiros e seda cresceu rapidamente, abastecendo a cidade e gerando prosperidade suficiente para atrair novas famílias de parentes e conhecidos.
A Mata do Segredo tornou-se o primeiro núcleo de colonização japonesa de Campo Grande — o ponto de partida de uma comunidade que ao longo do século 20 se expandiu por toda a cidade, chegando a 22 colônias espalhadas pela região.
Até hoje, a venda de verduras e frutas na Feira Central e no Mercado Municipal tem forte presença da comunidade japonesa e seus descendentes — um legado direto dessas primeiras famílias.
A influência de Okinawa: um capítulo dentro da história

Dentro da imigração japonesa em Campo Grande, existe um capítulo ainda mais específico: a influência de Okinawa, arquipélago localizado ao sul do Japão.
Aproximadamente 70% da colônia japonesa de Campo Grande é de origem okinawana — um percentual impressionante que moldou profundamente a identidade cultural da comunidade. Os okinawanos trouxeram não apenas a língua japonesa padrão, mas também o uchinaguchi, idioma próprio de Okinawa, além de tradições, culinárias e artes específicas dessa região.
É de Okinawa que vem o sobá — o macarrão de trigo sarraceno que se tornou o prato mais emblemático de Campo Grande, declarado patrimônio imaterial do município em 2004 e tombado pelo Iphan em 2006. O prato foi adaptado com ingredientes locais (carne bovina e suína, cebolinha, omelete e shoyu), mas manteve sua essência okinawana.
De Okinawa vem também o karatê, arte marcial criada na ilha no século XV, que encontrou em Campo Grande um dos seus maiores polos de desenvolvimento no Brasil. E os tambores taiko, que ecoam nas festas da comunidade até hoje.
Campo Grande e Okinawa até formalizaram esse laço: desde 1986, as duas cidades mantêm um acordo de intercâmbio cultural — que foi reativado em 2023 com perspectivas de ampliar as trocas impulsionadas pela futura Rota Bioceânica.
A Segunda Guerra Mundial e o período de restrições
A trajetória dos imigrantes japoneses no Brasil não foi linear. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Brasil se alinhou aos Aliados e entrou em conflito com os países do Eixo — entre eles, o Japão. As consequências para a comunidade nipônica no Brasil foram graves.
A imigração foi proibida. O uso público da língua japonesa foi restringido. Rádios, jornais e escolas em japonês foram fechados. Muitas famílias viveram sob desconfiança e, em alguns casos, sofreram com confisco de bens e deslocamentos forçados.
Mesmo assim, a comunidade japonesa em Campo Grande resistiu e se manteve coesa — em grande parte através dos laços internos, das associações de moradores e das redes de solidariedade entre as colônias.
Com o fim da guerra, o fluxo imigratório se retomou gradualmente. Os japoneses que chegaram no pós-guerra vieram agora em busca de trabalho no comércio, na indústria e no setor de serviços — consolidando a presença da comunidade em novas áreas da economia local.
O legado japonês em Campo Grande hoje

Mais de um século depois do Kasato Maru, a herança japonesa é parte indissociável de Campo Grande. Ela está presente em múltiplas dimensões da vida da cidade:
Na gastronomia: o sobá é o prato símbolo da capital. O Festival do Sobá, realizado anualmente na Feira Central, acontece de forma ininterrupta há mais de 30 anos e atrai milhares de visitantes. O evento foi ampliado para incluir também culturas paraguaia, indígena e gaúcha — celebrando a diversidade que define o MS.
Nas artes e esportes: taiko, karatê, judô, beisebol, origami, haicai e cerâmica são práticas vivas na cidade, mantidas pela Associação Okinawa de Campo Grande e pela Associação Nipo-Brasileira de Campo Grande.
Nos monumentos: o Monumento da Imigração Japonesa, na Praça do Rádio Clube, e o Memorial da Imigração Japonesa, na Esplanada Rodoviária, homenageiam essa história no espaço público da cidade.
Na agricultura e no comércio: descendentes de japoneses ainda estão entre os principais produtores e comerciantes de hortifrutigranjeiros de Campo Grande — uma continuidade direta daquelas primeiras plantações na Mata do Segredo.
Na educação e pesquisa: o Instituto Histórico e Geográfico de MS (IHGMS) mantém estudos sobre a imigração japonesa, e a UFMS já promoveu mostras de cinema japonês e eventos acadêmicos sobre o tema.
Onde sentir a cultura japonesa em Campo Grande
Se você quer vivenciar esse legado de perto, Campo Grande oferece experiências acessíveis e autênticas:
- Feira Central — o coração do legado japonês na cidade, com sobá, frutas, verduras e um clima impossível de encontrar em outro lugar
- Mercado Municipal — outro espaço histórico com forte presença da cultura japonesa no comércio
- Praça do Rádio Clube — onde fica o Monumento da Imigração Japonesa
- Esplanada Rodoviária — onde está o Memorial da Imigração Japonesa
- Festival do Sobá — realizado anualmente em agosto na Feira Central
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18 de junho: o dia que une dois países
Todo ano, em 18 de junho, o Brasil comemora o Dia Nacional da Imigração Japonesa — a data em que o Kasato Maru chegou ao porto de Santos em 1908.
Em Campo Grande, a data é celebrada com eventos culturais, apresentações de taiko, mostras de cinema japonês e cerimônias nas associações da comunidade.
É um dia para lembrar que a história de Mato Grosso do Sul foi construída por muitas mãos, de muitas origens — e que a coragem daquelas famílias que cruzaram o oceano há mais de um século deixou raízes que seguem florescendo.