Plantas medicinais do Pantanal: como a sabedoria popular e a ciência curam no mato
Flora do Pantanal

Plantas medicinais do Pantanal: como a sabedoria popular e a ciência curam no mato

22 de junho de 2026 9 min de leitura 0 visualizações

Conheça 15 espécies poderosas da nossa farmácia nativa, suas aplicações tradicionais, o que a ciência já comprova sobre elas e os cuidados essenciais no uso.

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Oi, Mateiro! Tudo firme? Sabe aquele chazinho caseiro ou aquela garrafada que as nossas avós e benzedeiras sempre indicavam para curar qualquer dor? Essa tradição não é por acaso. Ela é a herança viva dos pantaneiros raizeiros, que aprenderam a ler o bioma como uma verdadeira farmácia natural.

Viver em áreas isoladas da planície pantaneira, longe do perímetro urbano e de atendimento médico rápido, transformou o conhecimento botânico em uma ferramenta de sobrevivência. Hoje, nós podemos – e devemos- aprender com essa sabedoria. Pensando nisso, preparamos um guia completo para você ampliar seus conhecimentos para além de Campo Grande e desbravar a riqueza medicinal do bioma pantaneiro.

O tamanho da nossa farmácia verde

Para você ter uma ideia da nossa potência botânica, pesquisadores já catalogaram mais de 2 mil plantas medicinais no Pantanal. Contudo, cientistas estimam que esse número possa passar de 8 mil espécies se contarmos as áreas de transição com o Cerrado.

Atualmente, mais de 300 dessas plantas já foram validadas por laboratórios e são transformadas em fitoterápicos, pós e óleos essenciais pela indústria de cosméticos e saúde.

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⚠️ Aviso importante do Mateiro: As plantas medicinais são excelentes aliadas complementares. No entanto, o uso de remédios naturais não substitui a consulta com um médico especialista. Use a natureza com respeito e responsabilidade!

Guia de 15 plantas medicinais do Pantanal: usos e comprovações

Ipê Pantaneiro ou Paratudo (Handroanthus aureas / Tabebuia aurea)

Conhecido legitimamente no Pantanal como paratudo, o ipê-amarelo-do-pantanal tem sua casca mascada pelos peões de comitiva para tratar problemas estomacais, inflamações e febres.

  • O que a ciência diz: estudos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) confirmam que os extratos da casca do ipê possuem forte ação anti-inflamatória e analgésica. Além disso, pesquisas indicam que substâncias como o lapachol conseguem neutralizar parcialmente algumas enzimas do veneno de cobras (como a jararaca). Nota: O uso é estritamente emergencial e não anula a necessidade do soro antiofídico.

Jateí-Kaá (Achyrocline alata)

Essa planta herbácea é uma parente próxima da conhecida macela. Na cultura popular, o chá de suas flores e folhas é uma herança direta dos povos indígenas para dores estomacais e inflamações.

  • O que a ciência diz: testes laboratoriais comprovam que a Achyrocline alata possui propriedades antimicrobianas potentes. Ela atua diretamente na saúde bucal, combatendo as bactérias responsáveis pela cárie e auxiliando na recuperação de inflamações na gengiva (gengivite).

Perobinha-do-Campo (Acosmium dasycarpum)

Muito comum nas áreas de Cerrado que circundam a planície pantaneira, a perobinha-do-campo é amplamente utilizada em garrafadas e chás caseiros pelas comunidades tradicionais para combater dores internas.

  • O que a ciência diz: pesquisas fitoterápicas revelam que a entrecasca e as folhas da espécie são ricas em alcaloides e flavonoides, compostos de alta ação antioxidante, antimicrobiana e anti-inflamatória, justificando seu uso tradicional contra distúrbios gastrintestinais.

Guanandi ou Jacareúba (Calophyllum brasiliense)

O guanandi é uma árvore imponente que habita as matas de galeria e áreas úmidas. Popularmente, o látex e o chá de suas cascas são empregados para tratar úlceras e inflamações crônicas.

  • O que a ciência diz: cientistas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) descobriram que o extrato do guanandi possui propriedades hipoglicemiantes, auxiliando no controle da diabetes. Na medicina veterinária tradicional, ele é usado para acelerar a cicatrização de machucados e fortalecer tendões de cavalos de lida.

Manacá (Spiranthera odoratissima)

Este arbusto do Cerrado e Pantanal é famoso na medicina popular por ter raízes com propriedades analgésicas fortíssimas, usadas contra reumatismo e dores de cabeça.

  • O que a ciência diz: estudos farmacológicos validaram a presença de óleos essenciais e compostos cumarínicos nas raízes do manacá, que agem diretamente no sistema nervoso central atenuando dores musculares e estimulando o apetite.

Nota do Mateiro: Gosta de saber tudo sobre o nosso ecossistema? Aproveite para conferir nosso artigo sobre como praticar o Birdwatching e registrar as aves mais raras do Cerrado.

Açoita-Cavalo (Luehea paniculata)

Açoita-cavalo é uma árvore que recebe esse nome devido à flexibilidade de seus galhos. Seus ramos e cascas são tradicionalmente fervidos para banhos de assento e compressas contra varizes, câimbras e feridas cutâneas.

  • O que a ciência diz: a espécie possui alto teor de taninos, o que lhe confere uma poderosa ação adstringente e cicatrizante, excelente para o tratamento complementar de gastrites e inflamações na garganta.
Plantas medicinais do Pantanal

Catuaba (Anemopaegma arvense)

Conhecida também como alecrim-do-campo em algumas regiões de MS, as raízes dessa planta rasteira são famosas em garrafadas com vinho branco, atuando como um tônico para a memória e o esgotamento mental.

  • O que a ciência diz: a ciência reconhece a catuaba como uma planta adaptógena e estimulante do sistema nervoso central. Ela atua na vasodilatação, o que corrobora seu uso tradicional como estimulante sexual e energético natural.

Almécega ou Breu-Branco (Protium heptaphyllum)

Ao sofrer um corte no tronco, a almécega verte uma resina branca extremamente aromática. Os pantaneiros utilizam essa resina para queimar e inalar contra a sinusite, e usam a casca do caule para xaropes de tosse.

  • O que a ciência diz: a resina da almécega é rica em monoterpenos com propriedades expectorantes e broncodilatadoras comprovadas. Para quem faz trilha, passar a resina diluída na pele ajuda a aliviar a coceira de picadas de insetos devido à sua ação analgésica local.

Baunilha-do-Pantanal (Vanilla palmarum)

Trata-se de uma belíssima orquídea trepadeira que cresce especificamente apoiada nos troncos do acuri (palmeira nativa). Os pantaneiros usam suas sementes e vagens em infusões calmantes.

  • O que a ciência diz: assim como a baunilha comercial, a Vanilla palmarum contém vanilina, um composto aromático que possui propriedades ansiolíticas e sedativas leves, excelentes para melhorar a concentração e acalmar os batimentos cardíacos.

Carapiá ou Caiapiá (Dorstenia asaroides)

Encontrada em áreas sombreadas e capões do Pantanal, a raiz aromática da caiapiá é o ingrediente principal de garrafadas contra infecções respiratórias severas.

  • O que a ciência diz: a raiz da caiapiá possui propriedades imunoestimulantes e anti-inflamatórias, sendo muito eficaz no tratamento complementar de sinusites e congestões nasais. Antigamente, suas raízes secas eram misturadas ao tabaco para perfumar o fumo de corda.

Erva-de-Santa-Luzia (Pistia stratiotes)

Esta é uma planta aquática flutuante que ocorre em abundância nas baías e corixos pantaneiros. Na medicina popular, o chá de suas folhas é considerado um santo remédio para os rins.

  • O que a ciência diz: a Pistia stratiotes apresenta forte ação diurética, o que auxilia na limpeza das vias urinárias e no alívio de infecções leves na bexiga, facilitando a eliminação de toxinas.

Mangava-Brava ou Pacari (Lafoensia pacari)

O pacari é uma árvore cuja casca do caule é tradicionalmente macerada até virar pó ou preparada em infusão para curar feridas estomacais crônicas e auxiliar no emagrecimento.

  • O que a ciência diz: estudos conduzidos pela Unicamp comprovaram que a Lafoensia pacari possui ação antiulcerogênica potente, atuando na proteção da mucosa do estômago de forma comparável a medicamentos sintéticos. O pó de sua casca também é um cicatrizante de primeira linha para machucados de trilha.
Plantas medicinais do Pantanal

Picão-Preto (Bidens pilosa)

Muitas vezes chamado de “amor-de-mulher” devido à facilidade com que suas sementes grudam nas roupas, o picão é o melhor amigo das mulheres pantaneiras contra as cólicas menstruais.

  • O que a ciência diz: o picão-preto é uma das plantas mais estudadas do Brasil e está listada no Renisus (relação de plantas de interesse do SUS). Sua ação anti-inflamatória, hepatoprotetora (combate à icterícia e hepatite) e diurética é amplamente validada pela medicina moderna.

Orelha-de-Macaco ou Tamboril (Enterolobium contortisiliquum)

Essa árvore produz uma vagem escura cujo formato lembra uma orelha. Suas cascas e raízes são fervidas para tratar reumatismo e crises agudas de bronquite.

  • O que a ciência diz: cientistas descobriram que as folhas e cascas do tamboril contêm proteínas isoladas com propriedades antitumorais promissoras. Estudos in vitro demonstraram que essas substâncias auxiliam no combate a células de linhagens de câncer de próstata, colorretal e leucemia.

Sucupira-Preta (Bowdichia virgilioides)

Para fechar a nossa farmácia com chave de ouro, temos a sucupira-preta. Suas sementes e a entrecasca do caule são utilizadas em chás concentrados para combater dores de garganta e inflamações nas articulações.

  • O que a ciência diz: a ciência atesta que a espécie é rica em flavonoides e compostos voláteis que inibem os mediadores da inflamação, agindo como um poderoso analgésico natural contra a artrite e amigdalites.

Preservar a natureza é garantir a cura

Em resumo, a nossa biodiversidade vai muito além da beleza cênica: ela esconde os princípios ativos que podem curar o corpo e a mente. Portanto, valorizar o conhecimento dos raizeiros e das benzedeiras do Pantanal é defender a preservação do nosso solo. Afinal, quanto mais a gente conhece o poder da nossa terra, mais a gente luta para cuidar dela!

E aí, qual dessas plantas você já conhecia?

Você já tomou alguma garrafada de paratudo ou usou o breu-blanco na trilha? Compartilhe este post com aquele seu amigo que ama botânica e deixe o seu relato aqui nos comentários!

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aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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