Saruê: o gambá brasileiro que vive no Cerrado e no Pantanal de Mato Grosso do Sul
Fauna

Saruê: o gambá brasileiro que vive no Cerrado e no Pantanal de Mato Grosso do Sul

24 de agosto de 2018 8 min de leitura 0 visualizações

O Saruê, nosso incrível marsupial adaptado tanto às florestas quanto às áreas urbanas, intriga e encanta. Suas habilidades de dispersar sementes contribuem imensamente para a saúde das florestas. Com uma dieta onívora e uma presença marcante desde o Canadá até a Argentina, ele revela a rica diversidade da fauna sul-americana. Entretanto, é fundamental conhecer e respeitar esses animais, promovendo convívio pacífico e evitando atropelamentos. Partilhe a existência pacífica dessas criaturas notáveis!

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No meio do mato, nas bordas de fazendas e até nos quintais das cidades do interior de Mato Grosso do Sul, um animal discreto faz o serviço de limpeza do ecossistema sem que quase ninguém perceba. O saruê — nome popular do gambá brasileiro — é um marsupial nativo do Brasil que carrega os filhotes na barriga, resiste ao veneno de cobras cascavel e come carrapatos aos milhares. É um dos animais mais incompreendidos do Cerrado e do Pantanal.

Em MS, ocorrem principalmente duas espécies: o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris) e o gambá-de-orelha-preta (Didelphis marsupialis). Ambos habitam o Cerrado, o Pantanal e a Mata Atlântica do estado — e são muito mais úteis para o equilíbrio ambiental do que sua aparência sugere.

O que é o saruê — e por que o nome gambá também é correto

“Saruê” é o nome popular usado em Mato Grosso do Sul e em grande parte do Centro-Oeste e Nordeste do Brasil para se referir ao gambá. Os dois nomes designam o mesmo animal: um marsupial da família Didelphidae, parente distante dos cangurus e coalas australianos. A diferença é regional — em MS e em boa parte do interior, “saruê” é o nome mais usado no dia a dia.

Marsupial significa que a fêmea possui uma bolsa — o marsúpio — onde os filhotes completam seu desenvolvimento após o nascimento. No caso do saruê, os filhotes nascem com menos de 1 centímetro de comprimento, ainda em estágio embrionário, e rastejam sozinhos do canal de parto até a bolsa, onde se fixam a uma das tetas e ficam por cerca de dois meses.

Onde vive o gambá brasileiro em Mato Grosso do Sul

O saruê é um dos mamíferos silvestres mais adaptáveis do Brasil. Em MS, ele ocorre em praticamente todos os biomas do estado:

  • Cerrado: ocupa matas de galeria, matas ciliares e áreas de transição, especialmente nas regiões Central, Norte e Bolsão do estado.
  • Pantanal: presente nas bordas das matas inundáveis e nos cordilheiros — as faixas de terra mais elevada que não alagam na cheia.
  • Serra da Bodoquena e Mata Atlântica: no sudoeste de MS, habita fragmentos florestais e bordas de fazendas.

O animal é generalista e se adapta bem a ambientes alterados. Não é raro encontrá-lo próximo a habitações humanas no interior de MS, especialmente em municípios como Aquidauana, Corumbá, Bodoquena e Miranda, onde as bordas entre vegetação nativa e área urbana ainda são permeáveis.

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É um animal predominantemente noturno e solitário. Durante o dia, dorme em cavidades de árvores, tocas abandonadas ou sob folhagem densa. À noite, percorre rotas fixas em busca de alimento — e é nesse momento que costuma ser avistado pelos moradores locais.

O que o saruê come — e por que ele é fundamental para o ecossistema

O gambá brasileiro é onívoro e oportunista: come praticamente tudo que encontra. A dieta inclui frutos silvestres, sementes, insetos, pequenos vertebrados (lagartos, rãs, roedores), ovos, carniça e — aqui está um dos seus maiores serviços ambientais — carrapatos.

Estudos mostram que um único saruê pode consumir até 5.000 carrapatos por semana. Isso acontece porque o gambá tem o hábito de se auto-lamber com frequência, e nesse processo ingere os carrapatos que tentam se fixar no seu corpo. Diferente de humanos, cachorros e bovinos, o saruê não permite que os carrapatos completem o repasto — ele os elimina antes.

Além de carrapatos, o gambá também consome:

  • Baratas e escorpiões — importantes controladores de pragas peridomiciliares
  • Frutos e sementes — agindo como dispersor de plantas nativas, especialmente no Cerrado
  • Carniça — junto com urubus e outros necrófagos, contribui para o ciclo de nutrientes e evita a proliferação de doenças

É difícil superestimar a importância do saruê para o equilíbrio dos ecossistemas de MS. Ele presta um serviço ecossistêmico real e gratuito, especialmente em propriedades rurais do Pantanal e do Cerrado onde o carrapato-estrela é um problema de saúde animal e humana.

Saruê é imune ao veneno de cobras — e isso não é mito

Uma das características mais surpreendentes do gambá brasileiro é a sua resistência natural ao veneno de serpentes peçonhentas. O saruê possui proteínas no plasma sanguíneo que neutralizam as toxinas do veneno de cobras como a cascavel (Crotalus durissus) e a jararaca (Bothrops spp.) — as mais comuns no Cerrado e Pantanal de MS.

Essa resistência não é absoluta nem funciona para todos os tipos de veneno, mas é real e documentada cientificamente. Na prática, o saruê é capaz de atacar e consumir serpentes peçonhentas sem sofrer os efeitos letais que matariam outros mamíferos de tamanho semelhante.

Pesquisadores estudam as proteínas do gambá como possível base para novos antivenenos — o que coloca esse animal discreto do Cerrado no radar da pesquisa biomédica global.

Quantos anos vive um saruê?

O gambá brasileiro tem uma das menores expectativas de vida entre os mamíferos de seu porte. Na natureza, raramente passa de 2 a 4 anos. Em cativeiro, pode chegar a 4 a 5 anos com cuidados adequados.

Essa vida curta é compensada por uma alta capacidade reprodutiva. A fêmea entra no cio múltiplas vezes ao ano e pode ter até 3 ninhadas por ano, com 10 a 20 filhotes por ninhada. No entanto, como o marsúpio da fêmea tem em média 13 tetas, apenas os filhotes que conseguem se fixar a uma teta sobrevivem — os demais morrem nas primeiras horas de vida.

Esse mecanismo de “seleção natural imediata” é um dos mais brutais e fascinantes da biologia dos marsupiais sul-americanos.

O gambá finge de morto — como funciona a “morte aparente”

O comportamento de “fingir de morto” — chamado tecnicamente de tanatose — é um dos mais conhecidos do saruê. Quando ameaçado por um predador e sem possibilidade de fuga, o gambá cai de lado, fecha os olhos, baba, libera um odor fétido pelas glândulas odoríferas da axila e permanece completamente imóvel por minutos ou até horas.

O estado não é voluntário — é uma resposta involuntária do sistema nervoso ao estresse extremo, semelhante ao desmaio. O animal entra em colapso temporário e não responde a estímulos externos. Para muitos predadores, um animal morto e fedorento não é interessante — o que dá ao saruê tempo para “acordar” e escapar quando o perigo passa.

O cheiro forte não vem do ânus, como muitos pensam, mas de glândulas odoríferas localizadas na axila. O odor é mais intenso justamente durante episódios de tanatose ou quando o animal se sente ameaçado.

Gambá-de-orelha-branca e gambá-de-orelha-preta: qual é qual em MS?

As duas espécies que ocorrem em MS são parecidas, mas têm diferenças importantes:

  • Gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris): orelhas bicolores (pretas na base, brancas nas pontas), pelagem cinza. Mais comum no Cerrado e em áreas abertas. Adapta-se bem a ambientes perturbados e áreas agrícolas.
  • Gambá-de-orelha-preta (Didelphis marsupialis): orelhas totalmente pretas, pelagem mais escura. Prefere áreas florestadas e úmidas — mais frequente nas matas da Serra da Bodoquena e nas bordas do Pantanal.

Em MS, o gambá-de-orelha-branca é mais comum no cotidiano — é ele que aparece nos quintais, nas estradas à noite e nas bordas das cidades do interior. O gambá-de-orelha-preta prefere a floresta e é menos visto por moradores urbanos.

Saruê tem raiva? É perigoso para humanos e animais domésticos?

O gambá brasileiro tem temperatura corporal naturalmente mais baixa que outros mamíferos — em torno de 35°C, contra os 37–38°C típicos de cães, gatos e humanos. Essa temperatura mais baixa torna o ambiente corporal do saruê desfavorável para a replicação do vírus da raiva.

Na prática, o risco de transmissão de raiva pelo gambá é considerado muito baixo — significativamente menor do que o de morcegos, cães e gatos, que são os principais reservatórios da doença. Estudos no Brasil não identificaram o saruê como reservatório relevante para a raiva silvestre.

Isso não significa que o animal seja completamente inofensivo se manipulado sem proteção — como qualquer animal silvestre, pode morder se se sentir ameaçado, e pode ser portador de outros patógenos. A orientação correta, tanto da IMASUL quanto do ICMBio, é: não tocar, não alimentar e não tentar domesticar gambás. Em caso de animal ferido ou em área urbana, acionar a vigilância ambiental do município.

Por que o saruê é importante para o ecoturismo e a conservação em MS

Na lógica do ecoturismo que move destinos como Bonito, a Serra da Bodoquena e o Pantanal sul-mato-grossense, animais como o saruê representam uma camada de biodiversidade quase invisível — mas essencial. São os “engenheiros silenciosos” do ecossistema: controlam populações de insetos e roedores, dispersam sementes de plantas nativas, consomem carniça e reduzem a carga de carrapatos em propriedades rurais.

Para quem visita fazendas de ecoturismo no Pantanal ou trilhas do Cerrado em MS, avistar um saruê à noite é uma experiência genuína de fauna nativa — e entender o que ele faz transforma completamente a percepção de “bicho feio” para “aliado do ecossistema”.

Conservar o saruê significa preservar mata ciliar, bordas florestais e corredores ecológicos — os mesmos ambientes que sustentam a onça-pintada, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e todas as espécies mais emblemáticas de Mato Grosso do Sul.

👉 Conheça os destinos de ecoturismo do Pantanal e do Cerrado de MS em aquelemato.org/destinos — e descubra onde a fauna nativa ainda vive de perto.

aquelemato
Colaborador · AqueleMato

16 respostas

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  1. Avatar de Evandro Alves
    Evandro Alves

    Importante divulgar que o gambá preda o caramujo gigante achatina, um terrível invasor do nosso ambiente introduzido pelo homem.

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  2. Avatar de Evandro Alves
    Evandro Alves

    Importante divulgar que o gambá preda o caramujo gigante achatina, um terrível invasor do nosso ambiente introduzido pelo homem.

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