Com 36 sítios arqueológicos catalogados, Campo Grande guarda segredos de populações pré-coloniais que dominavam a pedra lascada e a cerâmica muito antes da fundação oficial da cidade
Para muitos, a história de Campo Grande começa com a chegada de José Antônio Pereira em 1872.
Porém, para quem sabe ler os sinais deixados na terra, a nossa “Cidade Morena” tem capítulos escritos há muito mais tempo.
Isso porque pesquisas recentes e o acervo do Museu de Arqueologia da UFMS (Muarq) confirmam: Campo Grande é um solo habitado há, pelo menos, 1,3 mil anos.
Vestígios de grupos nômades, caçadores, coletores e agricultores tardios estão espalhados por todo o município.
Ao todo, são 36 sítios arqueológicos registrados no Iphan dentro dos limites da capital, sendo 27 na área rural e 9 bem debaixo dos nossos pés, na área urbana.
Parque das Nações Indígenas indo muito além do lazer
Um dos achados mais emblemáticos é o sítio Córrego Prosa 01, localizado no coração do Parque das Nações Indígenas.
Enquanto hoje o campo-grandense toma seu tereré e faz caminhada, arqueólogos encontraram ali materiais líticos (pedra lascada) e fragmentos cerâmicos que datam de 635 a 1.300 anos atrás.
Os instrumentos de pedra eram usados para cortar, raspar e perfurar, revelando o estilo de vida de grupos que se moviam conforme a oferta de recursos naturais.
Em períodos posteriores, a presença de cerâmica indica o domínio da agricultura e de rituais mais complexos, ligando a região às grandes tradições Tupi-Guarani.
Um acervo de 200 mil peças
Toda essa história ancestral está preservada na reserva técnica do Muarq. A antropóloga e coordenadora Laura Roseli Pael Duarte destaca que esses achados são fundamentais para entender como os primeiros habitantes escolhiam seus acampamentos.
A proximidade com a água (como os nossos córregos Prosa e Segredo) e a oferta de alimentos eram os principais “atrativos imobiliários” da época pré-colonial.
Em Mato Grosso do Sul, a presença humana é ainda mais impressionante, com registros que chegam a 12.600 anos, mas os sítios de Campo Grande são peças-chave para entender a dinâmica de ocupação do planalto central do estado.
Preservação em meio ao progresso
Com o crescimento urbano, novos empreendimentos em Campo Grande hoje precisam passar por estudos arqueológicos rigorosos para evitar que máquinas destruam o que sobrou desse passado milenar. É um equilíbrio necessário para que o progresso não apague a memória de quem, há mil anos, já chamava este solo de lar.
Atenção, mateiro e amante da História!
Você sabia que Campo Grande tinha essa profundidade histórica?
- Visite o Muarq: conhecer o acervo da UFMS é um convite para entender que somos parte de uma linhagem milenar de ocupação.
- Respeite o patrimônio: se encontrar vestígios que pareçam antigos em áreas de escavação, acione o IPHAN ou a UFMS. O patrimônio arqueológico é protegido por lei.
- Seja um guia Aquele Mato: no nosso portal, valorizamos a história que o mato guarda.

