Mato Grosso do Sul tem 630 espécies de aves registradas — mas algumas delas são tão raras, tão esquivas e tão impressionantes que avistá-las é um evento que o observador lembra para o resto da vida. As aves de rapina entram com destaque nessa categoria.
Predadoras no topo da cadeia alimentar, as aves de rapina — também chamadas de rapinantes ou, no caso das noturnas, corujas e mochos — são reconhecidas pela visão aguçada, pelo voo potente e pelas garras adaptadas para caçar. São indicadoras da saúde do ecossistema: onde há rapinantes em quantidade, o ambiente está preservado.
Neste artigo, reunimos 11 espécies de aves de rapina raras que já foram registradas em Mato Grosso do Sul — da planície pantaneira à Serra da Bodoquena, do Chaco ao Cerrado. Algumas passam pelo estado em rotas migratórias. Outras vivem aqui e estão entre as aves mais ameaçadas do Brasil.
Se você quer entender mais sobre a prática de observação de aves antes de ir a campo, veja também nosso guia completo de birdwatching para iniciantes em MS.
O que são aves de rapina
Aves de rapina são espécies carnívoras que se alimentam de outros animais — vertebrados ou invertebrados — capturados ativamente. Elas se caracterizam por bico recurvado e afiado, garras fortes (chamadas de talões), visão extremamente aguçada e, em muitas espécies, audição excepcional.
São divididas em dois grandes grupos:
Diurnas — gaviões, águias, falcões e urubus. Caçam durante o dia e usam principalmente a visão para localizar presas.
Noturnas — corujas, mochos e urutaus. Têm visão adaptada ao escuro e audição altamente desenvolvida para caçar à noite. O murucututu, último da nossa lista, é um exemplo.
Por serem predadores de topo de cadeia, as aves de rapina são as primeiras a desaparecer quando um ecossistema se degrada. Por isso, sua presença em MS é um sinal importante de que ainda existem ambientes bem preservados no estado.
As 11 aves de rapina raras registradas em MS
1. Gavião-miúdo — Accipiter striatus (Vieillot, 1808)
Apesar do nome, não subestime este caçador. O gavião-miúdo tem ampla distribuição nas Américas — da América do Norte à Argentina — e é um predador ágil e astuto, especializado em capturar pequenas aves em voo dentro da vegetação densa.
Em Mato Grosso do Sul, já foi registrado no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, na planície pantaneira e na Serra da Bodoquena. Suas aparições no estado são consideradas raras e sempre despertam atenção entre os observadores locais.
2. Sauveiro-do-norte — Ictinia mississippiensis (Wilson, 1811)

Reconhecível pelas longas asas estreitas e pela coloração cinza com cabeça esbranquiçada, o sauveiro-do-norte é uma ave migratória que percorre distâncias impressionantes: passa o verão reprodutivo no sul dos Estados Unidos e no Canadá, e migra para a América do Sul durante o inverno do hemisfério norte.
Suas rotas migratórias pelo Brasil ainda são pouco documentadas pelos pesquisadores — o que torna cada registro no MS especialmente valioso. Além do registro histórico na planície pantaneira, bandos foram avistados em área rural de Angélica (cerca de 20 indivíduos) e em Bonito (mais de 200 aves) — um avistamento expressivo para uma espécie tão pouco estudada nessa região.
3. Águia-cinzenta — Urubitinga coronata (Vieillot, 1817)

Uma das aves de rapina mais ameaçadas do Brasil. A águia-cinzenta é classificada como “Em Perigo” pela IUCN e consta nos livros vermelhos de fauna ameaçada de todos os estados em que ocorre no Brasil. O avanço da agropecuária, as monoculturas, os empreendimentos hidrelétricos e o abate indiscriminado são as principais causas da sua situação crítica.
Ave grande e poderosa, pode chegar a 85 cm de comprimento e 3,5 kg — sendo a maior águia dos ambientes abertos (não florestais) do Brasil, atrás apenas da harpia. O adulto tem plumagem cinza-chumbo, penacho em forma de coroa e cauda curta com uma única faixa cinza. É também conhecida como águia-tatuzeira, por incluir tatus entre suas presas favoritas — junto com lebres, lagartos e pequenos mamíferos.
Necessita de extensas áreas de campo natural bem preservado para sobreviver, sendo muito sensível a ambientes alterados. Em MS, há registros na planície pantaneira e no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, próximo ao rio Paraná.
4. Águia-chilena — Geranoaetus melanoleucus (Vieillot, 1819)

Também chamada de águia preta e branca, a águia-chilena é uma espécie de grande porte que prefere regiões campestres e áreas montanhosas. Ocorre do Chile à Venezuela, e no sul, sudeste, centro e nordeste do Brasil.
Em Mato Grosso do Sul, foi registrada na planície pantaneira, em mata secundária nas fazendas Harmonia e Rancho Branco na Serra da Bodoquena, e nos municípios de Corumbá, Bonito e Jardim. Cada registro é considerado raro e documenta a presença dessa espécie em ambientes variados do estado.
5. Gavião-pedrês — Buteo nitidus (Latham, 1790)

O nome científico desta espécie já diz muito: nitidus significa “brilhante” em latim — uma referência à plumagem elegante deste gavião de médio porte, que ocorre do sul dos Estados Unidos até a Argentina.
Em MS, foi registrado na planície pantaneira, na Serra da Bodoquena, no Chaco brasileiro (na região de Porto Murtinho), no baixo rio Quitéria (Paranaíba), no Maciço do Urucum (Corumbá) e no município de Corguinho, na Serra de Maracaju — uma distribuição que mostra sua capacidade de ocupar diferentes biomas do estado.
6. Gavião-de-cauda-curta — Buteo brachyurus (Vieillot, 1816)

Caçador especializado em aves, o gavião-de-cauda-curta tem ampla distribuição, do México à Argentina, e ocorre em todo o território brasileiro. Apesar da relativa amplitude, suas aparições no MS são pontuais e registradas.
No estado, foi avistado no Pantanal, em área de Preservação Permanente do Córrego Caraguatá em Bataguassu, nos municípios de Aquidauana e Nova Alvorada do Sul, e nas fazendas Boqueirão e Remanso, ambas na Serra da Bodoquena.
7. Gavião-real (Harpia) — Harpia harpyja (Linnaeus, 1758)

O gavião-real é, sem exagero, uma das aves mais impressionantes do planeta. Considerado a maior ave de rapina do Brasil e a mais poderosa do mundo, pode atingir 1,05 m de comprimento, 2,1 m de envergadura e pesar até 9 kg nas fêmeas. Suas garras chegam a 6 cm de comprimento — maiores do que as garras de um urso pardo.
Alimenta-se principalmente de macacos, preguiças e outros mamíferos de médio porte que captura dentro da floresta em voos rápidos e precisos. É uma ave de floresta densa, e sua sobrevivência depende de grandes extensões de mata preservada — exatamente o que vem sendo destruído nas últimas décadas.
Seu status de conservação é grave: Vulnerável pelo ICMBio e Quase Ameaçada pela IUCN, já está localmente extinta em várias regiões de sua distribuição original no Brasil. Fora da Amazônia, a situação é ainda mais crítica — com populações em perigo crítico em estados como São Paulo, Paraná e Espírito Santo.
Em Mato Grosso do Sul, o gavião-real foi registrado na Serra da Bodoquena, nos municípios de Bonito e Bodoquena, e na fazenda Boca da Onça Ecotour. Um indivíduo adulto foi fotografado se alimentando de um filhote de carneiro em mata próxima ao rio Salobra — um registro raro e impactante.
8. Gavião-pato — Spizaetus melanoleucus (Vieillot, 1816)

O gavião-pato costuma ser visto voando nos períodos mais quentes da manhã, em círculos amplos sobre matas e campos adjacentes a rios. Ocorre do México à Argentina e em todo o Brasil.
Em MS, foi registrado na Serra da Bodoquena e no Pantanal, com avistamentos também no Parque Nacional da Serra da Bodoquena, no Recanto Ecológico Rio da Prata e na RPPN Buraco das Araras — esta última, um dos hotspots mais espetaculares de birdwatching do estado, conhecida principalmente pelas araras-canindé que nidificam na dolina.
9. Gavião-de-penacho — Spizaetus ornatus (Daudin, 1800)

Também conhecido como apacamim, o gavião-de-penacho tem um dos nomes científicos mais poéticos da lista: ornatus significa “ornamentado” em latim — uma referência ao penacho de penas longas que adorna sua cabeça. Ocorre do México à Argentina e em todo o Brasil, mas está se tornando cada vez mais raro na natureza devido ao desmatamento e à caça.
Em MS, há registros nas nascentes do rio Sucuriú (Costa Rica), no Pantanal, no Chaco, na RPPN Vale do Bugio (Corguinho, Serra de Maracaju) e em área brejosa de Nova Alvorada do Sul, na Bacia do Alto Rio Paraná.
10. Gavião-pega-macaco — Spizaetus tyrannus (Wied, 1820)

Também chamado de apacanim-preto ou urubitiga (no norte do país), o gavião-pega-macaco habita florestas do México à Argentina e ocorre em todo o Brasil. No estado, um dos registros é da região do Chaco, no município de Porto Murtinho — um dos raros lugares do Brasil onde esse bioma existe. Há também registros próximos a Sidrolândia e na fazenda Boca da Onça Ecotour, em Bodoquena.
11. Falcão-relógio — Micrastur semitorquatus (Vieillot, 1817)

O falcão-relógio é mais escutado do que visto. Canta ao clarear ou ao escurecer do dia, com vocalizações fortes e repetitivas que ecoam pelas matas — mas o próprio animal raramente se deixa ver, graças aos seus hábitos esquivos e à preferência por matas fechadas.
O nome científico traduz bem suas características: mikros (pequeno) + astur (açor/milhafre) + semi (meio) + torquatus (com colar) — ou seja, o “pequeno milhafre com meio colar”. Ocorre de diferentes habitats florestais do México à Argentina e em todo o Brasil.
Em MS, há registros no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, no Pantanal e na Serra da Bodoquena, além de avistamentos nos municípios de Jardim, Brasilândia, Bonito, Corumbá e Costa Rica.
Bônus: Murucututu — Pulsatrix perspicillata (Latham, 1790)

Para fechar a lista com uma espécie noturna: o murucututu é uma das maiores corujas do Brasil, com comportamento predominantemente florestal e distribuição do México à Argentina. Também chamado de corujão, coruja-de-garganta-preta ou coruja-do-mato, seu nome científico pode ser traduzido como “a ave de óculos que ataca” — uma referência ao padrão de plumagem ao redor dos olhos.
Em MS, já foi registrado no Pantanal e na Serra da Bodoquena. Por ser noturno e esquivo, seus registros são especialmente raros e valorizados entre os observadores de aves.
Por que tantas aves de rapina raras aparecem em MS
A resposta está na geografia singular do estado. Mato Grosso do Sul é um dos únicos lugares do Brasil onde quatro biomas se encontram: o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e o Chaco. Cada bioma tem suas espécies características, e as zonas de transição entre eles criam ambientes únicos que concentram uma diversidade extraordinária.
Além disso, o estado está no caminho de rotas migratórias que conectam América do Norte, Central e do Sul — o que explica a presença de espécies como o sauveiro-do-norte, que passa pelo MS durante suas migrações sazonais.
As aves de rapina, por precisarem de grandes territórios e ambientes preservados, são termômetros precisos da saúde dos ecossistemas. Encontrá-las em MS é tanto um privilégio quanto um sinal de que ainda vale a pena proteger o que temos.
Como aumentar suas chances de avistamento
Aves de rapina são, por natureza, mais difíceis de observar do que aves florestais ou aquáticas. Algumas dicas práticas:
- Binóculo é indispensável — prefira modelos 8×42 ou 10×42 para boa visibilidade a distância
- Procure nos horários de termal — gaviões e águias costumam voar em círculos altos nas horas mais quentes do dia, aproveitando as correntes de ar quente
- Ouça antes de ver — o falcão-relógio e o murucututu anunciam sua presença pelo canto antes de aparecer
- Use guias locais — em regiões como Pantanal e Bodoquena, guias experientes conhecem os pontos de maior frequência dessas espécies
- Registre no WikiAves — cada avistamento seu contribui para o mapeamento científico das aves no MS
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