Aves de rapina em Mato Grosso do Sul: 11 espécies raras que já foram avistadas no estado
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Aves de rapina em Mato Grosso do Sul: 11 espécies raras que já foram avistadas no estado

15 de junho de 2026 11 min de leitura 0 visualizações

Faça um voo com a gente pra conhecer algumas aves de rapina que são raras, mas já foram vistas por Mato Grosso do Sul.

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Mato Grosso do Sul tem 630 espécies de aves registradas — mas algumas delas são tão raras, tão esquivas e tão impressionantes que avistá-las é um evento que o observador lembra para o resto da vida. As aves de rapina entram com destaque nessa categoria.

Predadoras no topo da cadeia alimentar, as aves de rapina — também chamadas de rapinantes ou, no caso das noturnas, corujas e mochos — são reconhecidas pela visão aguçada, pelo voo potente e pelas garras adaptadas para caçar. São indicadoras da saúde do ecossistema: onde há rapinantes em quantidade, o ambiente está preservado.

Neste artigo, reunimos 11 espécies de aves de rapina raras que já foram registradas em Mato Grosso do Sul — da planície pantaneira à Serra da Bodoquena, do Chaco ao Cerrado. Algumas passam pelo estado em rotas migratórias. Outras vivem aqui e estão entre as aves mais ameaçadas do Brasil.

Se você quer entender mais sobre a prática de observação de aves antes de ir a campo, veja também nosso guia completo de birdwatching para iniciantes em MS.

O que são aves de rapina

Aves de rapina são espécies carnívoras que se alimentam de outros animais — vertebrados ou invertebrados — capturados ativamente. Elas se caracterizam por bico recurvado e afiado, garras fortes (chamadas de talões), visão extremamente aguçada e, em muitas espécies, audição excepcional.

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São divididas em dois grandes grupos:

Diurnas — gaviões, águias, falcões e urubus. Caçam durante o dia e usam principalmente a visão para localizar presas.

Noturnas — corujas, mochos e urutaus. Têm visão adaptada ao escuro e audição altamente desenvolvida para caçar à noite. O murucututu, último da nossa lista, é um exemplo.

Por serem predadores de topo de cadeia, as aves de rapina são as primeiras a desaparecer quando um ecossistema se degrada. Por isso, sua presença em MS é um sinal importante de que ainda existem ambientes bem preservados no estado.

As 11 aves de rapina raras registradas em MS

1. Gavião-miúdo — Accipiter striatus (Vieillot, 1808)

Apesar do nome, não subestime este caçador. O gavião-miúdo tem ampla distribuição nas Américas — da América do Norte à Argentina — e é um predador ágil e astuto, especializado em capturar pequenas aves em voo dentro da vegetação densa.

Em Mato Grosso do Sul, já foi registrado no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, na planície pantaneira e na Serra da Bodoquena. Suas aparições no estado são consideradas raras e sempre despertam atenção entre os observadores locais.

2. Sauveiro-do-norte — Ictinia mississippiensis (Wilson, 1811)

Foto: Willian Menq | Aves de rapina Brasil

Reconhecível pelas longas asas estreitas e pela coloração cinza com cabeça esbranquiçada, o sauveiro-do-norte é uma ave migratória que percorre distâncias impressionantes: passa o verão reprodutivo no sul dos Estados Unidos e no Canadá, e migra para a América do Sul durante o inverno do hemisfério norte.

Suas rotas migratórias pelo Brasil ainda são pouco documentadas pelos pesquisadores — o que torna cada registro no MS especialmente valioso. Além do registro histórico na planície pantaneira, bandos foram avistados em área rural de Angélica (cerca de 20 indivíduos) e em Bonito (mais de 200 aves) — um avistamento expressivo para uma espécie tão pouco estudada nessa região.

3. Águia-cinzenta — Urubitinga coronata (Vieillot, 1817)

Foto: Leonardo Amui | Aves de rapina Brasil

Uma das aves de rapina mais ameaçadas do Brasil. A águia-cinzenta é classificada como “Em Perigo” pela IUCN e consta nos livros vermelhos de fauna ameaçada de todos os estados em que ocorre no Brasil. O avanço da agropecuária, as monoculturas, os empreendimentos hidrelétricos e o abate indiscriminado são as principais causas da sua situação crítica.

Ave grande e poderosa, pode chegar a 85 cm de comprimento e 3,5 kg — sendo a maior águia dos ambientes abertos (não florestais) do Brasil, atrás apenas da harpia. O adulto tem plumagem cinza-chumbo, penacho em forma de coroa e cauda curta com uma única faixa cinza. É também conhecida como águia-tatuzeira, por incluir tatus entre suas presas favoritas — junto com lebres, lagartos e pequenos mamíferos.

Necessita de extensas áreas de campo natural bem preservado para sobreviver, sendo muito sensível a ambientes alterados. Em MS, há registros na planície pantaneira e no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, próximo ao rio Paraná.

4. Águia-chilena — Geranoaetus melanoleucus (Vieillot, 1819)

Foto: Rafael Balestrin | Aves de rapina Brasil

Também chamada de águia preta e branca, a águia-chilena é uma espécie de grande porte que prefere regiões campestres e áreas montanhosas. Ocorre do Chile à Venezuela, e no sul, sudeste, centro e nordeste do Brasil.

Em Mato Grosso do Sul, foi registrada na planície pantaneira, em mata secundária nas fazendas Harmonia e Rancho Branco na Serra da Bodoquena, e nos municípios de Corumbá, Bonito e Jardim. Cada registro é considerado raro e documenta a presença dessa espécie em ambientes variados do estado.

5. Gavião-pedrês — Buteo nitidus (Latham, 1790)

Foto: Marcelo Dutra | Aves de rapina Brasil

O nome científico desta espécie já diz muito: nitidus significa “brilhante” em latim — uma referência à plumagem elegante deste gavião de médio porte, que ocorre do sul dos Estados Unidos até a Argentina.

Em MS, foi registrado na planície pantaneira, na Serra da Bodoquena, no Chaco brasileiro (na região de Porto Murtinho), no baixo rio Quitéria (Paranaíba), no Maciço do Urucum (Corumbá) e no município de Corguinho, na Serra de Maracaju — uma distribuição que mostra sua capacidade de ocupar diferentes biomas do estado.

6. Gavião-de-cauda-curta — Buteo brachyurus (Vieillot, 1816)

Foto: Dante Meller | Aves de rapina Brasil

Caçador especializado em aves, o gavião-de-cauda-curta tem ampla distribuição, do México à Argentina, e ocorre em todo o território brasileiro. Apesar da relativa amplitude, suas aparições no MS são pontuais e registradas.

No estado, foi avistado no Pantanal, em área de Preservação Permanente do Córrego Caraguatá em Bataguassu, nos municípios de Aquidauana e Nova Alvorada do Sul, e nas fazendas Boqueirão e Remanso, ambas na Serra da Bodoquena.

7. Gavião-real (Harpia) — Harpia harpyja (Linnaeus, 1758)

Foto: Juliano Mafra | Aves de rapina Brasil

O gavião-real é, sem exagero, uma das aves mais impressionantes do planeta. Considerado a maior ave de rapina do Brasil e a mais poderosa do mundo, pode atingir 1,05 m de comprimento, 2,1 m de envergadura e pesar até 9 kg nas fêmeas. Suas garras chegam a 6 cm de comprimento — maiores do que as garras de um urso pardo.

Alimenta-se principalmente de macacos, preguiças e outros mamíferos de médio porte que captura dentro da floresta em voos rápidos e precisos. É uma ave de floresta densa, e sua sobrevivência depende de grandes extensões de mata preservada — exatamente o que vem sendo destruído nas últimas décadas.

Seu status de conservação é grave: Vulnerável pelo ICMBio e Quase Ameaçada pela IUCN, já está localmente extinta em várias regiões de sua distribuição original no Brasil. Fora da Amazônia, a situação é ainda mais crítica — com populações em perigo crítico em estados como São Paulo, Paraná e Espírito Santo.

Em Mato Grosso do Sul, o gavião-real foi registrado na Serra da Bodoquena, nos municípios de Bonito e Bodoquena, e na fazenda Boca da Onça Ecotour. Um indivíduo adulto foi fotografado se alimentando de um filhote de carneiro em mata próxima ao rio Salobra — um registro raro e impactante.

8. Gavião-pato — Spizaetus melanoleucus (Vieillot, 1816)

Foto: Willian Menq | Aves de rapina Brasil

O gavião-pato costuma ser visto voando nos períodos mais quentes da manhã, em círculos amplos sobre matas e campos adjacentes a rios. Ocorre do México à Argentina e em todo o Brasil.

Em MS, foi registrado na Serra da Bodoquena e no Pantanal, com avistamentos também no Parque Nacional da Serra da Bodoquena, no Recanto Ecológico Rio da Prata e na RPPN Buraco das Araras — esta última, um dos hotspots mais espetaculares de birdwatching do estado, conhecida principalmente pelas araras-canindé que nidificam na dolina.

9. Gavião-de-penacho — Spizaetus ornatus (Daudin, 1800)

Foto: Sergio Messias | Aves de rapina Brasil

Também conhecido como apacamim, o gavião-de-penacho tem um dos nomes científicos mais poéticos da lista: ornatus significa “ornamentado” em latim — uma referência ao penacho de penas longas que adorna sua cabeça. Ocorre do México à Argentina e em todo o Brasil, mas está se tornando cada vez mais raro na natureza devido ao desmatamento e à caça.

Em MS, há registros nas nascentes do rio Sucuriú (Costa Rica), no Pantanal, no Chaco, na RPPN Vale do Bugio (Corguinho, Serra de Maracaju) e em área brejosa de Nova Alvorada do Sul, na Bacia do Alto Rio Paraná.

10. Gavião-pega-macaco — Spizaetus tyrannus (Wied, 1820)

Foto: Augustinho Nery | Aves de rapina Brasil

Também chamado de apacanim-preto ou urubitiga (no norte do país), o gavião-pega-macaco habita florestas do México à Argentina e ocorre em todo o Brasil. No estado, um dos registros é da região do Chaco, no município de Porto Murtinho — um dos raros lugares do Brasil onde esse bioma existe. Há também registros próximos a Sidrolândia e na fazenda Boca da Onça Ecotour, em Bodoquena.

11. Falcão-relógio — Micrastur semitorquatus (Vieillot, 1817)

Foto: Willian Menq | Aves de rapina Brasil

O falcão-relógio é mais escutado do que visto. Canta ao clarear ou ao escurecer do dia, com vocalizações fortes e repetitivas que ecoam pelas matas — mas o próprio animal raramente se deixa ver, graças aos seus hábitos esquivos e à preferência por matas fechadas.

O nome científico traduz bem suas características: mikros (pequeno) + astur (açor/milhafre) + semi (meio) + torquatus (com colar) — ou seja, o “pequeno milhafre com meio colar”. Ocorre de diferentes habitats florestais do México à Argentina e em todo o Brasil.

Em MS, há registros no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, no Pantanal e na Serra da Bodoquena, além de avistamentos nos municípios de Jardim, Brasilândia, Bonito, Corumbá e Costa Rica.

Bônus: Murucututu — Pulsatrix perspicillata (Latham, 1790)

Foto: Douglas Fernandes | Aves de rapina Brasil

Para fechar a lista com uma espécie noturna: o murucututu é uma das maiores corujas do Brasil, com comportamento predominantemente florestal e distribuição do México à Argentina. Também chamado de corujão, coruja-de-garganta-preta ou coruja-do-mato, seu nome científico pode ser traduzido como “a ave de óculos que ataca” — uma referência ao padrão de plumagem ao redor dos olhos.

Em MS, já foi registrado no Pantanal e na Serra da Bodoquena. Por ser noturno e esquivo, seus registros são especialmente raros e valorizados entre os observadores de aves.

Por que tantas aves de rapina raras aparecem em MS

A resposta está na geografia singular do estado. Mato Grosso do Sul é um dos únicos lugares do Brasil onde quatro biomas se encontram: o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e o Chaco. Cada bioma tem suas espécies características, e as zonas de transição entre eles criam ambientes únicos que concentram uma diversidade extraordinária.

Além disso, o estado está no caminho de rotas migratórias que conectam América do Norte, Central e do Sul — o que explica a presença de espécies como o sauveiro-do-norte, que passa pelo MS durante suas migrações sazonais.

As aves de rapina, por precisarem de grandes territórios e ambientes preservados, são termômetros precisos da saúde dos ecossistemas. Encontrá-las em MS é tanto um privilégio quanto um sinal de que ainda vale a pena proteger o que temos.

Como aumentar suas chances de avistamento

Aves de rapina são, por natureza, mais difíceis de observar do que aves florestais ou aquáticas. Algumas dicas práticas:

  • Binóculo é indispensável — prefira modelos 8×42 ou 10×42 para boa visibilidade a distância
  • Procure nos horários de termal — gaviões e águias costumam voar em círculos altos nas horas mais quentes do dia, aproveitando as correntes de ar quente
  • Ouça antes de ver — o falcão-relógio e o murucututu anunciam sua presença pelo canto antes de aparecer
  • Use guias locais — em regiões como Pantanal e Bodoquena, guias experientes conhecem os pontos de maior frequência dessas espécies
  • Registre no WikiAves — cada avistamento seu contribui para o mapeamento científico das aves no MS

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Colaborador · AqueleMato
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