Se você já ouviu falar em “estalar de dentes” e “odor forte” na mata, provavelmente estava no rastro da queixada (Tayassu pecari). Conhecido regionalmente como porco-do-mato, sabacu ou até “canela-ruiva” (variação avermelhada comum no Nabileque e na fronteira com a Bolívia), esse animal carrega a verdadeira essência da biodiversidade pantaneira.
Apesar de ser frequentemente confundido com o javali (espécie invasora) e com o porco-monteiro (doméstico feralizado), o queixada é um mamífero nativo e tem uma história própria nas florestas e savanas das Américas.
Por que “queixada”?
O apelido curioso vem de uma característica física marcante: o hábito de bater e estalar o queixo ruidosamente. O som é produzido pelo atrito de caninos afiados, que projetam a parte inferior para fora da boca. Esse estalo não é mero charme. É um aviso claro de que o animal está estressado ou pronto para defender o grupo.
O próprio nome da família científica, Tayassuidae, deriva do tupi-guarani Tai wa’su, que significa “dentes grandes”.
Como vive e do que se alimenta a queixada?
Com peso médio em torno de 30 a 40 kg e comprimento de cerca de 1 metro, as queixadas têm corpo robusto, pernas longas e pelagem rajada que varia entre preto, marrom e cinza, marcada por tons claros no focinho.
Diferente de outros mamíferos da região, as queixadas são extremamente sociais e circulam pelo bioma em grandes bandos, que podem reunir de dezenas a mais de 100 indivíduos.

As “engenheiras” da floresta
Embora tragam um visual que assusta de longe, a dieta da queixada é majoritariamente vegetariana e cumpre uma função ecológica essencial:
- Frutos e sementes: Consomem raízes, caules e frutos de palmeiras como o acuri (Attalea phalerata) e o buriti (Mauritia flexuosa) em áreas úmidas.
- Dispersão de sementes: Ao se deslocarem por grandes distâncias no Pantanal e no Cerrado, transportam e enterram sementes, atuando na regeneração natural do ecossistema.
- Dieta oportunista: Eventualmente, enriquecem a alimentação com pequenos invertebrados, ovos ou carniça.
Estudos conduzidos pela Dra. Alexine Keuroghlian, bióloga referência na conservação de pecarídeos no Brasil, apontam que o hábito de fuçar o solo e pisotear pequenas áreas alagadas altera a estrutura do terreno, criando microhabitats para espécies de anfíbios e invertebrados.
O mecanismo de defesa e o famoso “cheiro forte”
A queixada possui uma glândula odorífera localizada no dorso, próxima à cauda. Quando o bando percebe a presença de uma ameaça, os pelos do dorso se arrepiam e a glândula libera um cheiro almiscarado e penetrante.
Esse odor serve para manter o grupo unido em matas densas e para espantar predadores. Poucos animais encaram um bando organizado de queixadas — no Pantanal, apenas a onça-pintada e a parda costumam predar a espécie de forma regular.
Ameaças e o status de conservação
Apesar da presença no Pantanal e na Amazônia, a queixada está classificada como Vulnerável (VU) à extinção na Lista Vermelha do ICMBio e da IUCN.
As principais razões para o declínio populacional no Brasil incluem:
- Perda e fragmentação de habitat: O desmatamento reduz a conectividade do solo, impedindo o deslocamento dos bandos.
- Caça ilegal e competição: A pressão de caça e a competição territorial com espécies exóticas invasoras, como o javali, afetam a disponibilidade de recursos nativos.
- Sensibilidade a impactos humanos: Por dependerem de extensas áreas preservadas, são uma das primeiras espécies a desaparecer quando há degradação do ambiente.
A proteção de corredores ecológicos e a conservação de Unidades de Conservação contínuas são estratégias fundamentais para garantir que os grandes bandos de queixadas continuem cumprindo seu papel de dispersores no Pantanal e no Cerrado.
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