Quase na fronteira com a Bolívia, onde o Pantanal deixa de ser planície e sobe em paredões de pedra com até 1.000 metros de altura, existe um território que até agora era restrito a pesquisadores e equipes de conservação. A Serra do Amolar — com seus 80 quilômetros de extensão e uma das maiores densidades de mamíferos do planeta — acabou de ganhar sua primeira travessia de longo percurso aberta ao público: a Travessia Guadakan.
Sete dias combinando caminhada, navegação fluvial e caiaque. Hospedagem em áreas protegidas. Passagem por território ancestral do povo Guató. Uma rota que o Instituto Homem Pantaneiro (IHP) definiu, com precisão, como “uma conexão única com a natureza em uma das áreas mais conservadas do Pantanal.”
A Sera do Amolar não é o Pantanal que você conhece
O Pantanal que a maioria imagina é horizontal: água, capim, tuiuiú, jabiru. A Serra do Amolar quebra esse roteiro de um jeito radical. A cadeia montanhosa surgiu dos últimos eventos de soerguimento dos Andes, há cerca de 2,5 milhões de anos, e representa uma anomalia geológica no meio da maior planície alagável do mundo.
Morros que chegam a 1.000 metros de altura emergem de áreas inundáveis. Florestas que ficam debaixo d’água na cheia voltam a fechar a copa na seca. E tudo isso funcionando como uma barreira natural que regula o fluxo das nascentes e mantena o pulso de cheias e vazantes da Bacia do Alto Paraguai — o mecanismo que sustenta a vida de centenas de espécies no Pantanal inteiro.
Os números de biodiversidade assustam: a região abriga a segunda maior densidade populacional de mamíferos da Terra, com 0,724 espécies por 1.000 km². São mais de 200 espécies de animais registradas, incluindo pelo menos 10 mamíferos e aves ameaçados globalmente. A UNESCO reconheceu a área como Reserva da Biosfera. Mais de 50 mil hectares estão protegidos nas RPPNs Eng. Eliezer Batista e Acurizal-Penha.
E mesmo assim, até agora, quase ninguém chegava até lá.
7 dias de expedição: o que acontece em cada etapa da Travessia
A Travessia Guadakan tem classificação difícil e não é para estreantes. São aproximadamente 24 quilômetros de caminhada e 20 quilômetros de percurso aquático em caiaque distribuídos ao longo de 7 dias de expedição. O roteiro combina três modalidades:
Caminhada por trilhas na Serra, com subidas e descidas entre formações rochosas e florestas de transição. O terreno é irregular e o calor do Pantanal não dá trégua — a preparação física e o equipamento certo fazem diferença real aqui.
Navegação fluvial pelos rios que cortam a região, com trechos em embarcações ao longo da Bacia do Alto Paraguai. Essa parte do percurso oferece uma perspectiva diferente da Serra: vista da água, as paredes rochosas aparecem com outra escala.
Caiaque em áreas alagadas, que exige técnica básica de pagaiação e concentração nos trechos de corrente mais forte. Para quem nunca remou, vale buscar treinamento antes da viagem.
A travessia passa dentro das RPPNs e inclui pernoites em pontos estratégicos da rota — parte do que torna a experiência diferente de qualquer outra trilha conhecida no estado.
Povo Guató: 5.000 anos antes de você
Nenhuma expedição pela Serra do Amolar faz sentido sem entender quem habitou esse território por milênios. O povo Guató tem presença documentada na região há pelo menos 5.000 anos, e a Aldeia Uberaba Guató, na Ilha Ínsua, permanece ativa até hoje.
A Travessia Guadakan foi desenhada para incluir essa dimensão. O nome da rota vem do vocabulário Guató — um aceno direto à ancestralidade do lugar. “A travessia busca apresentar um território com ancestralidade do povo Guató, que conecta regiões, comunidades e gera uma conexão única com a natureza”, disse Ângelo Rabelo, presidente do IHP.
Esse componente cultural transforma o que poderia ser só uma aventura física em algo mais completo: uma leitura da paisagem que inclui quem sempre viveu nela, muito antes de qualquer RPPN ou projeto de ecoturismo.
Animais que você tem chance real de encontrar
A densidade de vida selvagem na Serra do Amolar coloca a rota em outra categoria de experiência faunística. Com mais de 200 espécies registradas e habitats que incluem florestas de galeria, áreas rochosas e zonas de inundação, o avistamento não é garantido — mas as chances são acima da média de qualquer destino do estado.
O que os registros históricos das RPPNs mostram:
- Onça-pintada — a Serra do Amolar é um dos últimos refúgios de qualidade para a espécie no Pantanal
- Ariranha — frequente nos trechos fluviais, especialmente no período da seca
- Tamanduá-bandeira e tamanduá-mirim — comuns nas bordas entre campo e floresta
- Aves de rapina — a topografia irregular cria correntes térmicas que facilitam o avistamento de gaviões e falcões em planeio
- Aves aquáticas — tuiuiú, garças, colhereiro e biguá aparecem nos trechos de navegação
Para birders, o misto de ambientes (Serra + várzea + floresta inundável) cria uma lista de espécies que dificilmente se consegue em uma única trilha em qualquer outro ponto de Mato Grosso do Sul.
Quem está por trás da Travessia Guadakan
A rota foi estruturada com financiamento do GEF Terrestre (Fundo Global para o Meio Ambiente), dentro de um projeto voltado para estratégias de conservação em Caatinga, Pampa e Pantanal. A execução é do próprio IHP, com suporte financeiro do FUNBIO e coordenação técnica do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
“A Travessia Guadakan permite uma aproximação muito diferente da Serra do Amolar. Quem percorre consegue compreender como a paisagem muda e como biodiversidade, cultura e história estão conectadas nesse território”, afirmou Rodolfo Marçal, gerente de portfólio do FUNBIO.
A rota integra a Rede Trilhas — iniciativa nacional de mapeamento e certificação de trilhas de longo percurso que vem expandindo sua presença em Mato Grosso do Sul.

Por que a Serra do Amolar precisa de visitantes preparados
A abertura da Travessia Guadakan não é só uma notícia de turismo. É uma estratégia de conservação.
A Serra do Amolar enfrenta pressões crescentes: alteração no regime de chuvas, períodos mais longos de seca (o que ficou evidente nos incêndios de 2024 e nas queimadas que já consomem mais de 80 mil hectares do Pantanal em 2026), e intervenções nos rios que afetam o pulso natural de cheias. A presença de visitantes qualificados, que entendem o território e voltam para suas cidades com essa história, cria um argumento político e econômico para manter a proteção da área.
Não é abstrato: unidades de conservação sem frequência de visitação são mais vulneráveis a pressões por mudança de uso. Ecoturismo de qualidade é, nesse sentido, uma forma de proteção ativa.
Como participar da Travessia Guadakan
As informações de inscrição, datas e operação estão sendo gerenciadas diretamente pelo Instituto Homem Pantaneiro. O canal oficial para acompanhar atualizações e garantir sua vaga é:
- Site do IHP: institutohomempantaneiro.org.br
- Instagram: @institutohomempantaneiro
Por se tratar de uma travessia em área protegida com vagas limitadas, o recomendado é entrar em contato com antecedência e verificar os pré-requisitos físicos e técnicos antes de se inscrever. A classificação de dificuldade difícil é real — especialmente para os trechos de caiaque e as caminhadas com altitude variável.
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