Se você já esteve numa trilha em alguma mata fechada de Mato Grosso do Sul e ouviu um canto grave e misterioso, parecido com o de uma coruja, mas vindo de algum lugar entre os galhos à meia altura,, é bem possível que o responsável fosse o udu-de-coroa-azul. Uma ave que impressiona antes mesmo de ser vista: só de ouvir o chamado, já dá para sentir que tem algo especial por perto.
E quando você finalmente vê, entende o nome.
Quem é o udu-de-coroa-azul

O udu-de-coroa-azul (Momotus momota) é uma ave da ordem Coraciiformes — a mesma dos abelharucos — e da família Momotidae, exclusiva das Américas. No Brasil, é conhecido por vários apelidos: juruva, uru, tropeiro, duro-duro e, no Pantanal de Mato Grosso do Sul especificamente, é chamado de martim-pescador-da-mata-virgem, um nome que já diz muito sobre o ambiente em que vive.
Seu nome científico carrega uma história curiosa: momota é uma corruptela de momot, nome asteca mencionado por Hernandez em 1651 para um pássaro com coroa azul, do tamanho de um pombo, que habitava as regiões tropicais. Quase quatrocentos anos depois, o nome segue sendo a descrição mais precisa que existe.
A aparência que para qualquer caminhada
O udu-de-coroa-azul é, sem exagero, uma das aves mais elegantes do Brasil. Pode medir entre 41 e 46 centímetros de comprimento e pesar cerca de 145 gramas. Mas o tamanho não é o que chama atenção, é a combinação de cores.
As partes superiores do corpo são verdes, tornando-se azuis na cauda inferior, e as partes de baixo são verdes ou com coloração ferruginosa, dependendo da subespécie. A cabeça tem uma coroa negra circundada por uma faixa roxa e azul, com uma máscara negra característica e a nuca castanha.
Mas o detalhe mais marcante, e mais comentado entre quem a vê pela primeira vez, é a cauda. A cauda é longa, com as penas centrais mais compridas do que o corpo e as demais menores e escalonadas. Na ponta das penas centrais aparecem duas “raquetes”, estrutura formada pela perda natural das franjas laterais da pena após sua formação — restando apenas a ponta.
E sabe o que o udu faz com essas raquetes? Movimenta a cauda lateralmente, como um pêndulo, especialmente quando se sente observado. É um comportamento tão característico que, uma vez visto, ninguém mais confunde com outra ave.
Onde vive e como se distribui

O udu-de-coroa-azul tem distribuição muito ampla: ocorre desde o sul do México, passando por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Paraguai, Venezuela e Guiana, chegando até o norte da Argentina.
No Brasil, está presente em praticamente todos os biomas. Ocorre na Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal — o que o torna um dos visitantes mais frequentes das trilhas de Mato Grosso do Sul, estado onde todos esses biomas (exceto a Caatinga) estão representados.
Frequenta variados tipos de vegetação: florestas tropicais, cerrados, cerradões, matas ciliares, matas secas, áreas esparsamente arborizadas e até áreas antrópicas. O que ele busca, acima de tudo, é sombra, umidade e galhos a meia altura — e nisso, MS oferece condições ideais, especialmente na Serra da Bodoquena, nos rios do Pantanal e nas matas ciliares do Cerrado.
Essas aves podem viver em uma ampla gama de altitudes, desde o nível do mar até 3.000 metros, e preferem áreas com algum curso d’água próximo ou terreno com ravinas — ótimas para fazer seus ninhos.
O que come e como caça
O udu-de-coroa-azul é onívoro e tem uma dieta generosa. Come frutos, artrópodes, minhocas, pequenos peixes, pequenos mamíferos, outras aves e seus filhotes. Ou seja: não é uma ave que espera a comida cair do céu.
Quando captura uma presa grande, bate o animal repetidamente contra um galho antes de engoli-lo, uma técnica para matar a presa e quebrar partes duras como asas ou pernas de insetos antes de ingerir.
Apesar de ativo durante o dia, impressiona a dificuldade de vê-lo nas trilhas, a plumagem verde se camufla perfeitamente entre as folhas, e o udu costuma ficar parado por longos períodos num mesmo galho, observando o ambiente ao redor antes de se mover. É um caçador paciente.
O canto que parece vir do além

O som do udu-de-coroa-azul é uma das primeiras coisas que chamam atenção de quem começa a observar aves em MS. O canto é semelhante ao de uma coruja, emitido com mais frequência ao clarear e ao escurecer do dia, embora possa ser ouvido a qualquer hora. Começa com um chamado curto, grave e acelerado, que soa como “udu” ou “duro”. Quando outro indivíduo responde, os dois aceleram o ritmo e aumentam o número de repetições, e a interpretação onomatopaica do canto passa a ser “juruva”.
Daí vem um dos seus apelidos mais usados no interior do Brasil. Escute nas primeiras horas da manhã numa trilha de mata fechada, a chance de ouvi-lo antes de vê-lo é muito grande.
Reprodução: ninhos escavados na terra
A reprodução do udu-de-coroa-azul tem uma característica incomum para uma ave tão colorida: ela nidifica no chão. O período reprodutivo vai de julho a novembro. O ninho pode ser um buraco em barranco de rio, às vezes com mais de um metro de profundidade e estreito, onde são depositados de três a quatro ovos brancos.
A escolha por barrancos e ravinas à beira de rios explica parte da preferência do udu por ambientes próximos a cursos d’água e também demonstra por que ele é tão comum nas margens dos rios e corixos do Pantanal e nas serras da Bodoquena.
Uma ave com muitos nomes e muitas subespécies
O udu-de-coroa-azul é uma espécie complexa, com diversas subespécies distribuídas por diferentes regiões da América do Sul. Em Mato Grosso do Sul, a subespécie mais comum é a Momotus momota pilcomajensis, que ocorre do leste da Bolívia e norte da Argentina até o leste e sul do Brasil, nos estados de Goiás, São Paulo e Paraná, passando por MS.
A subespécie do Nordeste, Momotus momota marcgraviana, está cada vez mais rara em razão da redução do seu habitat, a Mata Atlântica. O desmatamento, a destruição do habitat e o tráfico de animais são os principais fatores de ameaça para a espécie em diferentes regiões do Brasil, o que reforça ainda mais a importância de conservar ambientes como o Pantanal e o Cerrado sul-mato-grossense.
Onde avistá-lo em Mato Grosso do Sul
O udu-de-coroa-azul é uma das espécies mais gratificantes para quem está começando no birdwatching justamente porque, apesar de discreto, ocorre em boa parte do estado. Alguns dos melhores ambientes para procurá-lo:
Serra da Bodoquena e Bonito — as matas ciliares dos rios da região são habitat ideal. Em trilhas mais lentas e silenciosas, as chances de avistamento são altas.
Pantanal — especialmente nas matas de galeria às margens dos corixos e rios. O nome popular “martim-pescador-da-mata-virgem” dado pelos pantaneiros já indica que é uma presença conhecida e reconhecida no bioma.
Campo Grande — sim, é possível encontrá-lo na capital. O Parque das Nações Indígenas e as matas do Parque Matas do Segredo são pontos de registro frequente na plataforma WikiAves.
Trilhas em mata fechada pelo interior do estado — onde houver mata ciliar ou cerradão com umidade, o udu tem grande chance de aparecer.
O udu-de-coroa-azul é um bom lembrete do que Mato Grosso do Sul guarda: beleza que não aparece em primeiro plano, que pede pausa, silêncio e atenção. Exatamente o tipo de encontro que o mato reserva para quem vai a campo disposto a olhar de verdade.
Quer conhecer mais sobre as aves do MS e como observá-las?