Considerada uma lenda viva por seus hábitos estritamente noturnos, espécie gigante foi filmada caminhando fora da toca no Parque Natural Municipal do Pombo, em Três Lagoas
O trabalho de campo na biologia é feito de paciência, persistência e, às vezes, de uma dose inacreditável de sorte. A princípio, pesquisadores passam anos mapeando pegadas e instalando equipamentos sem nunca ver o bicho cara a cara.
No entanto, uma equipe de biólogos em Mato Grosso do Sul viveu o que a própria ciência considera um encontro raro, emocionante e inesquecível: um tatu-canastra gigante caminhando calmamente fora da toca em plena luz do dia.
O registro em vídeo, que rapidamente viralizou nas redes sociais do Projeto Tatu Canastra (@institutotatucanastra), mostra o animal explorando o terreno sob o sol. Para quem estuda a fauna, esse momento é o equivalente a ganhar na loteria científica, já que ver essa espécie ativa durante o dia é algo raríssimo de acontecer.
Por que esse flagrante é considerado “impossível”?
De fato, o tatu-canastra (Priodontes maximus) é o maior e mais raro tatu do planeta, podendo atingir até 1,5 metro de comprimento e pesar mais de 50 kg. Inclusive, as chances de avistá-lo na lida diurna são mínimas em razão das suas características biológicas:
- Espécie fossorial: ele passa a imensa maioria da sua vida debaixo da terra, cavando túneis profundos com suas garras que chegam a 20 centímetros.
- Hábito noturno: ele só sai do miolo das suas tocas nas horas mais escuras da noite para se alimentar de cupins e formigas, retornando antes do amanhecer.
“Momentos como esse marcam profundamente a vida de um biólogo de campo. É um lembrete da beleza, do mistério e da importância de conservar esse animal fascinante, símbolo dos nossos biomas”, destacou a equipe do projeto na publicação.
O santuário de Três Lagoas: uma fortaleza para a espécie
O Parque Natural Municipal do Pombo, localizado em Três Lagoas, na região leste do estado, possui uma área protegida de mais de 80 km² e representa o maior remanescente de cerrado nativo com a presença confirmada de tatu-canastra já identificado pelos cientistas no Mato Grosso do Sul.
Desde 2022, o ICAS (por meio do Projeto Tatu-canastra) mantém uma parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Agronegócio da Prefeitura de Três Lagoas. O objetivo das pesquisas nessa unidade de conservação é compreender e monitorar aquela que é avaliada como uma das últimas grandes populações geneticamente viáveis de tatus-canastra em todo o Cerrado sul-mato-grossense.
O engenheiro dos biomas precisa de proteção
Na prática, esse movimento gera um alerta fundamental sobre a conservação ambiental.
Ou seja, o tatu-canastra não é apenas um bicho gigante e curioso; ele é um “engenheiro ecossistêmico”. As grandes buracas que ele cava para dormir servem de abrigo térmico, refúgio contra predadores e local de caça para mais de 100 outras espécies de animais selvagens.
Se o tatu-canastra some por conta da perda de habitat, das queimadas ou do desmatamento do Cerrado, todo esse ecossistema de “hospedagem gratuita” desaba junto.
Por isso, ver esse gigante caminhar livre e seguro sob o sol de Mato Grosso do Sul é a prova viva de que proteger os nossos parques municipais e estaduais é a única garantia de que os mistérios do nosso cerrado continuem vivos.