Uma moradora encontrou o animal sozinho à beira de uma estrada vicinal no município de Água Clara. Sem a mãe por perto, sem o grupo familiar, exposta ao risco de atropelamento e com apenas 700 gramas de peso. O que parecia mais um caso de fauna em situação de vulnerabilidade logo se revelou algo muito mais raro: tratava-se de uma filhote fêmea de cachorro-vinagre (Speothos venaticus), um dos canídeos mais escassos da América do Sul e espécie classificada como Vulnerável nas listas da IUCN e do ICMBio.
O caso ganhou relevância por envolver um dos canídeos mais raros da América do Sul e por marcar o primeiro atendimento da espécie no CRAS de Mato Grosso do Sul em mais de duas décadas.
Do resgate ao hospital

Assim que a moradora comunicou o achado às autoridades, a cadeia de acionamento funcionou rapidamente. O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio) acionou o CRAS/MS, que efetuou o resgate e o transporte seguro do filhote até o Hospital Veterinário da unidade.
A chegada foi delicada. Com apenas 700 gramas de massa corporal, a paciente encontrava-se em estado de prostração, com desidratação severa, desconforto abdominal intenso e diarreia. A equipe técnica iniciou imediatamente um protocolo de suporte intensivo para estabilizar o animal.
A estrutura que recebeu a filhote é o Hospital Ayty, unidade do Imasul considerada uma das maiores estruturas voltadas à fauna silvestre da América Latina, com farmácia, centro cirúrgico, raio-X, setor de esterilização e outras áreas especializadas para o tratamento de animais resgatados.
A recuperação
A resposta ao tratamento surpreendeu positivamente. A filhote apresentou boa evolução e conseguiu avançar de 700 gramas para um quilo, peso compatível com a idade estimada de seis a oito semanas de vida.
Atualmente, a paciente encontra-se ativa, responsiva aos estímulos ambientais e sem sinais dos problemas gastrintestinais observados no momento do resgate.
O manejo inclui alimentação balanceada, cuidadosamente adaptada à faixa etária e à fase de transição alimentar, além do suporte medicamentoso necessário para a manutenção do quadro clínico.
Para a gestora do CRAS, Aline Duarte, o resultado é fruto de um esforço coletivo: “Casos como este evidenciam a importância do atendimento especializado prestado pelo CRAS. O acompanhamento contínuo e o manejo adequado são fundamentais para garantir a recuperação do filhote e ampliar as possibilidades de sucesso em sua reabilitação”.
A médica-veterinária responsável pelo caso, Paloma Gabrieli da Silva, reforça a complexidade técnica envolvida: “A reabilitação de filhotes exige alta complexidade técnica, envolvendo monitoramento contínuo, biometria periódica, manejo nutricional adaptado aos ciclos etários e análise do desenvolvimento ponderal, demandando esforço técnico concentrado para garantir a sobrevivência e a higidez do espécime”.
Quem é o cachorro-vinagre

Apesar do nome pouco conhecido, o cachorro-vinagre é um animal fascinante, e sua raridade explica bem por que esse resgate se tornou notícia nacional.
O Speothos venaticus é um canídeo de pequeno porte, com corpo alongado e patas curtas, que habitava originalmente florestas tropicais e áreas de transição do Cerrado ao longo de boa parte da América do Sul.
Ele vive em grupos familiares, é caçador cooperativo e tem hábitos predominantemente diurnos, características que o tornam diferente da maioria dos canídeos selvagens brasileiros, como o lobo-guará, que é solitário e noturno.
Exatamente por viver em grupos coesos e depender de ambientes florestais bem preservados para sobreviver, o cachorro-vinagre é um dos primeiros animais a desaparecer quando o habitat se fragmenta.
O desmatamento, a expansão agrícola e o atropelamento em estradas são as principais ameaças à espécie, o que torna ainda mais significativo o fato de esta filhote ter sido encontrada viva, ainda que em estado crítico.
O que esse resgate representa
Para o diretor-presidente do Imasul, André Borges, o caso vai além do animal em si: “Receber um animal tão raro e ameaçado de extinção reforça a relevância do trabalho realizado pelo CRAS e pelo Imasul. Cada atendimento representa uma oportunidade de contribuir para a conservação da biodiversidade brasileira e demonstra a capacidade técnica instalada em Mato Grosso do Sul para atuar na proteção das espécies silvestres”.
O fato de o CRAS/MS não receber um cachorro-vinagre há mais de 20 anos diz muito sobre a raridade da espécie no estado, mas também sobre a dificuldade de monitorá-la, já que o animal é esquivo e vive em áreas de difícil acesso.
Portanto, cada registro, é também um dado científico valioso para entender onde a espécie ainda persiste e em que condições.
Mato Grosso do Sul e a fauna que precisa de proteção
O cachorro-vinagre é mais um nome que integra a longa lista de espécies ameaçadas que ainda encontram refúgio nos biomas de Mato Grosso do Sul. Ao lado da onça-pintada, da ariranha, da águia-cinzenta e do cervo-do-pantanal, ele lembra que o mato que a gente tanto ama não é apenas cenário, é habitat de animais que dependem da integridade desse ambiente para sobreviver.
Conservar é, antes de tudo, garantir que histórias como essa continuem sendo possíveis.
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