Umidade despenca a 10% em MS; e Pantanal entra na temporada mais perigosa do ano
Preservação

Umidade despenca a 10% em MS; e Pantanal entra na temporada mais perigosa do ano

14 de julho de 2026 6 min de leitura 2 visualizações

Cemtec registrou umidade mínima de 10% à tarde em regiões do norte e do Pantanal sul-mato-grossense na sexta-feira (10); o estado já está em emergência ambiental por 180 dias, decretada pelo governador Riedel em 3 de junho, e o El Niño deve agravar o cenário no segundo semestre

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O Pantanal não arde quando chega o fogo. Ele arde quando chega o ar seco. E nesta sexta-feira (10 de julho), o ar de Mato Grosso do Sul chegou a 10% de umidade relativa — o nível mais crítico que o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) reconhece como estado de alerta.

De acordo com o Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima), a umidade oscila entre 30% de máxima e apenas 10% de mínima no período da tarde: patamar que mantém o estado em alerta para riscos à saúde e para a propagação de incêndios. As temperaturas não ajudam: a máxima prevista para Campo Grande é de 29°C, enquanto Corumbá deve marcar até 34°C. Os ventos vêm de leste, com intensidade entre 30 km/h e 50 km/h. 

Por trás do céu limpo está um sistema de alta pressão atmosférica que se estende sobre o Centro-Oeste. A subsidência do ar associada a esse bloqueio inibe a formação de nuvens e sustenta o tempo seco por dias seguidos. E o pior: não é um episódio isolado.

Um padrão que se repete — e piora

A normal climatológica de julho aponta uma umidade relativa compensada média mensal de 62% em Campo Grande. Com a mínima despencando a 10%, o ar fica muito distante desse padrão histórico. 

O histórico recente é igualmente preocupante. Em julho de 2025, todos os 51 pontos monitorados pelo Cemtec registraram precipitação abaixo da média histórica. Em Campo Grande, o déficit chegou a 82% em relação à climatologia de 1981-2010. Chapadão do Sul chegou a marcar umidade relativa mínima de 11% no dia 31 daquele mês. 

Os termômetros também mostraram amplitude marcante em julho de 2025: Iguatemi registrou mínima de 1,1°C no dia 19, e Corumbá alcançou máxima de 36,7°C no dia 27. No acumulado anual de 2025, Corumbá acumulou déficit de 190,8 mm de precipitação abaixo da média histórica. 

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Além disso, entre 8 e 12 de julho deste ano, uma massa de ar seco avança sobre o interior brasileiro, com áreas de baixa umidade registradas em 14 estados.

MS já está em emergência ambiental

O cenário de sexta-feira não pegou o governo de surpresa, e é exatamente por isso que as medidas já estavam sendo tomadas.

Imagem gerada por IA para representar as queimadas

Em publicação no Diário Oficial do Estado, o governador Eduardo Riedel decretou “Estado de Emergência Ambiental” para todo Mato Grosso do Sul, pelo prazo de 180 dias. A medida foi publicada no dia 2 de julho e tem validade até o início de dezembro, período considerado o mais crítico para a ocorrência de incêndios florestais em Mato Grosso do Sul. 

O decreto não é apenas simbólico. Segundo o documento, a combinação de temperaturas superiores a 30°C, ventos acima de 30 quilômetros por hora e umidade relativa do ar inferior a 30% cria condições favoráveis à propagação rápida do fogo, além de provocar piora significativa na qualidade do ar. O alerta é mais intenso para áreas do Bioma Pantanal. 

Entre as medidas previstas estão: a possibilidade de utilização temporária de propriedades particulares em situações de risco iminente, a dispensa de licitação para aquisições emergenciais relacionadas ao enfrentamento dos incêndios e a autorização para contratação temporária de pessoal. Durante os 180 dias, as queimadas estão proibidas em Mato Grosso do Sul.

Para o secretário estadual de Meio Ambiente, Artur Falcette, a antecipação é a palavra-chave: “Estamos diante de um cenário que exige atenção e preparação antecipada. O decreto de emergência ambiental nos permite adotar medidas preventivas importantes, reforçando a capacidade do Estado de responder rapidamente caso ocorram eventos extremos relacionados aos incêndios florestais.”

O El Niño como agravante

O que torna o segundo semestre de 2026 especialmente preocupante vai além da seca sazonal. O fenômeno El Niño deve elevar as temperaturas em Mato Grosso do Sul, especialmente no segundo semestre de 2026. A intensificação prevista para os próximos meses pode agravar ainda mais as condições climáticas no Estado.

Para meados de 2026, há probabilidade elevada de desenvolvimento do El Niño no Pacífico, fenômeno que costuma alterar os padrões de chuva no país. O Cemtec já considerou esse fator na nota técnica que embasou o decreto de emergência, e o Corpo de Bombeiros foi acionado para revisar o planejamento operacional que havia sido elaborado com base em um cenário climático considerado normal. 

O risco para a saúde

Umidade abaixo de 20% já é considerada estado de atenção pelo Inmet. Abaixo de 12%, entramos no nível de emergência. Com 10% registrado na sexta, o impacto sobre a saúde humana é direto e imediato: ressecamento das mucosas, sangramento nasal, irritação nos olhos, agravamento de doenças respiratórias como asma e bronquite, e maior risco de desidratação, especialmente em crianças, idosos e pessoas com condições respiratórias preexistentes.

As recomendações para esses dias são simples e importantes: beba mais água do que o habitual, mesmo sem sentir sede; umedeça ambientes internos com bacias de água ou umidificadores; evite atividades físicas ao ar livre nas horas mais quentes (entre 10h e 16h); e fique atento a sintomas respiratórios.

O que isso significa para o Pantanal

O Pantanal e o Cerrado sul-mato-grossense são os ambientes mais vulneráveis neste cenário. Com a vegetação ressecada depois de meses de déficit hídrico — em um bioma que, como já reportamos aqui no Aquele Mato, perdeu 80% da sua superfície de água em 40 anos —, qualquer faísca pode se transformar num incêndio de grandes proporções.

Apesar do agravamento do déficit hídrico, o Pantanal sul-mato-grossense teve, em 2025, redução expressiva de focos de calor e de área queimada em relação a 2024 — resultado direto das ações de prevenção e do trabalho das brigadas de incêndio. Mas o desafio de 2026 promete ser ainda maior, com o El Niño intensificando o calor e a seca ao longo dos próximos meses.

O Pantanal que a gente ama é também o Pantanal mais vulnerável do Brasil neste momento. E os números de sexta-feira — 10% de umidade, 34°C em Corumbá, ventos de até 50 km/h — são um lembrete de que a temporada mais perigosa do ano acabou de começar.

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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