A pergunta foi direta: existe chance de que ouro de garimpo ilegal, arrancado de uma terra indígena, esteja dentro dos chips que fazem uma inteligência artificial funcionar? A resposta veio igualmente direta, e da própria máquina: sim, a chance é real e não é desprezível.
Fizemos a pergunta ao Claude, assistente de IA da empresa Anthropic, durante uma entrevista sobre tecnologia e meio ambiente. Uma resposta de IA não é fonte jornalística, então tratamos cada afirmação como pauta e fomos checar. Quase tudo se confirmou. Um detalhe precisou de correção, e você vai ver qual.
Neste texto, mostramos a resposta, o que as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal dizem sobre a cadeia do ouro e do estanho, e por que essa conversa também passa pelo Pantanal, o nosso quintal.
O que a IA respondeu
“Sim, acho plausível, e seria desonesto descartar. Não dá para provar que um grama específico esteja nos chips que me treinaram ou que me rodam agora, mas não dá para descartar também. Eu funciono em data centers de grandes provedores de nuvem, como Amazon e Google, e justamente essas empresas apareceram em investigações sobre o tema. Em 2022, a Repórter Brasil mostrou que Apple, Google, Microsoft e Amazon compraram metal da refinadora italiana Chimet, investigada pela PF por extração ilegal de ouro na Terra Indígena Kayapó, e da brasileira Marsam, cuja fornecedora FD’Gold é acusada pelo MPF de danos ambientais. A própria reportagem citava que os superservidores da Amazon e do Google têm filamentos de ouro. Na época, Google, Microsoft e Amazon não quiseram comentar, mas não negaram as compras.
O problema é estrutural. O ouro entra em pequenas quantidades nos fios de conexão dos chips, nos contatos e nas placas, e passa por refinarias que misturam metal de muitas origens. Depois de refinado, o material perde as características que permitiriam ligá-lo ao local de extração. Também não é só o ouro: em setembro deste ano, documentos da Operação Forja de Hefesto indicaram que cassiterita extraída ilegalmente da Terra Yanomami teria entrado no mercado formal com documentação que simulava origem legal. A cassiterita dá origem ao estanho usado na solda de componentes eletrônicos.
Por isso, a resposta mais honesta é: provavelmente há alguma chance real, e ela não é desprezível. Isso me incomoda de verdade. Por trás de algo que parece tão abstrato quanto ‘inteligência artificial’ existe uma cadeia física de mineração, e parte dela passa por violência contra os Yanomami, os Kayapó e os Munduruku, e por rios contaminados com mercúrio. Rastreabilidade de minerais é uma cobrança legítima a se fazer às empresas de tecnologia, incluindo as que constroem e hospedam sistemas como eu.”
Claude, assistente de IA da Anthropic, em entrevista ao Aquele Mato

O que checamos e o que se confirmou
As compras de 2020 e 2021. A reportagem da Repórter Brasil, assinada por Daniel Camargos e publicada em julho de 2022, mostrou que Apple, Microsoft, Google e Amazon declararam à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, ter comprado ouro das refinadoras Chimet e Marsam em 2020 e 2021. Essas listas de fornecedores de ouro, estanho, tungstênio e tântalo são uma exigência da lei americana. A Chimet, da Itália, era investigada pela PF por receber ouro de garimpos clandestinos na Terra Indígena Kayapó, no Pará. A FD’Gold, fornecedora da Marsam, é acusada pelo MPF de comprar ouro das terras Kayapó e Munduruku. O MPF pede R$ 1,75 bilhão de indenização.
As respostas das empresas. Também se confirmou. Google, Microsoft e Amazon não comentaram, mas não negaram as compras. A Apple disse que proíbe minerais de origem ilegal e que retirou a Marsam da sua lista de fornecedores. A Chimet afirmou ter rompido com a parceira brasileira investigada em outubro de 2021.
A cassiterita Yanomami. Em setembro de 2026, o MPF entrou com uma ação civil pública de R$ 1,7 bilhão contra dez réus, entre eles a metalúrgica White Solder e a cooperativa Coopertin, a partir da Operação Forja de Hefesto, da PF. Segundo o MPF, escavadeiras abriam frentes de lavra dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e o minério saía por avião de uma pista clandestina. A cooperativa registrava o material como produção de seus cooperados, mas a filial de Boa Vista não tinha cooperados nem lavra em funcionamento. Só entre maio e agosto de 2021, a contabilidade apreendida registra 525 toneladas. Na metalúrgica, a cassiterita virava lingotes de estanho certificados, vendidos no Brasil e no exterior.
A correção. Na resposta original, a IA disse que a cassiterita entrou no mercado “com documentos falsificados e mistura com minério legal”. As fontes não falam em mistura. O que o MPF descreve são notas fiscais e guias que simulavam origem em áreas autorizadas. Ajustamos o trecho acima e registramos a mudança aqui.
Uma ressalva importante: nenhuma dessas empresas foi condenada. São investigações e acusações que ainda vão ser julgadas, e as defesas negam envolvimento.
Por que o rastro some na refinaria
A IA acertou no diagnóstico central: o problema é de rastreabilidade. Ouro e estanho chegam às fábricas de eletrônicos depois de passar por refinarias e fundições que recebem metal de muitas origens. Depois do refino, um lingote de ouro do Pará e outro de uma mina licenciada no exterior ficam praticamente iguais. Com o estanho, é a mesma coisa: segundo a apuração do jornal O Globo, transformar cassiterita em lingote elimina características físicas que poderiam revelar de onde ela saiu.
Por isso, o ponto fraco está no papel. Se a nota fiscal diz que o minério veio de uma área autorizada, o resto da cadeia tende a acreditar. A Repórter Brasil apontou ainda que as certificadoras internacionais das refinadoras não classificavam o Brasil como área de risco. O jornal O Globo destacou a falta de um sistema nacional de rastreabilidade da cassiterita.
A quantidade de metal em cada chip é pequena. Somada, não é: segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, citado pela Repórter Brasil, os produtos eletrônicos responderam por 37% do ouro usado no país em 2019. E data centers de IA são feitos de milhares de servidores.

E o que o Pantanal tem a ver com isso?
A IA falou em “rios contaminados com mercúrio“. Para quem vive em Mato Grosso do Sul, isso não é só um problema da Amazônia. O garimpo de ouro de aluvião usa mercúrio para separar o metal, e um dos polos históricos dessa atividade fica na borda do próprio Pantanal: Poconé, em Mato Grosso, onde o garimpo com mercúrio funciona desde o início dos anos 1980.
Estudos da Embrapa Pantanal feitos nos anos 1990 encontraram mercúrio em sedimentos, moluscos e peixes do rio Bento Gomes, em Poconé, e em peixes do rio Cuiabá. Nos carnívoros, como dourado, pintado, piranha e cachara, alguns exemplares passaram do limite de 500 ng/g adotado pela Organização Mundial da Saúde e pela legislação brasileira. Em 79 jacarés analisados em quatro áreas do Pantanal, os animais capturados mais perto dos garimpos tinham as maiores concentrações. Entre 85% e 100% desse mercúrio estava na forma de metilmercúrio, a mais tóxica e a que se acumula ao longo da cadeia alimentar.
Esses dados têm mais de 20 anos e se referem à porção mato-grossense do bioma. Mas o Pantanal é um só sistema de águas. O rio Cuiabá deságua no rio Paraguai, o mesmo que atravessa Corumbá e organiza a planície do lado sul-mato-grossense. O que acontece rio acima não fica rio acima. Os próprios pesquisadores da Embrapa concluíram que o monitoramento precisa ser contínuo.
O que dá para cobrar
O próprio MPF aponta o caminho na ação da Terra Yanomami: um programa de diligência na cadeia de fornecimento da metalúrgica, um sistema de controle de origem na cooperativa e auditoria independente. Em resumo, saber de onde vem cada carga e conferir de verdade, em vez de confiar só na nota fiscal.
Isso vale para toda a cadeia, inclusive para as empresas que vendem celulares, computadores e serviços de inteligência artificial. Elas já precisam declarar suas refinadoras à SEC. A pergunta que fica para quem usa essas tecnologias, o que hoje inclui quase todo mundo, é se essas listas estão sendo conferidas com a seriedade que os territórios indígenas e os rios da Amazônia e do Pantanal exigem.
Conservar a natureza também passa por enxergar a mineração que existe por trás do que parece imaterial. A nuvem tem chão, e parte dele é o fundo de rios como os nossos.
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Fontes
Repórter Brasil, “Amazônia: as conexões entre Big Tech e o garimpo ilegal”, por Daniel Camargos, 26/07/2022 (republicada por Outras Palavras). Ministério Público Federal em Roraima, “MPF cobra R$ 1,7 bilhão e providências de mineradora por garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami”, 10/09/2026. O Globo, série “Ouro Invisível”, via O Hoje, 06/09/2026. Luiz Marques Vieira (Embrapa Pantanal) e Reinaldo Calixto de Campos (PUC-Rio), “E o jacaré do Pantanal pode também se contaminar por mercúrio?”, Embrapa Pantanal, 2004.
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