Contar onças-pintadas no Pantanal nunca foi tarefa simples, pois o felino é solitário, territorial e se move por áreas de difícil acesso.
Porém, um projeto inédito do Instituto Homem Pantaneiro (IHP) vai enfrentar esse desafio com 40 armadilhas fotográficas espalhadas pela Serra do Amolar, em Corumbá, uma das regiões mais preservadas do bioma. A meta: estimar quantos indivíduos vivem ali e entender como usam o território.
O projeto tem início em 2026 e duração prevista de até 12 meses. Foi aprovado pelo Fundo Luz Alliance, gerido pela BrazilFoundation, e está alinhado à Década da Restauração dos Ecossistemas, convocada pela ONU. As 40 câmeras foram adquiridas em parceria com a LogNature e devem gerar mais de 120 mil imagens da fauna pantaneira ao longo do estudo – um volume que só se torna analisável com apoio de inteligência artificial na catalogação.

Por que a onça-pintada é a espécie escolhida
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas e funciona como espécie guarda-chuva: proteger seu habitat e suas rotas significa, na prática, preservar toda a teia de vida que depende do mesmo território.
Quando se garante área e presa suficientes para sustentar uma população saudável de onças, protege-se junto a fauna de médio e pequeno porte, as matas ciliares e os corredores que ligam os fragmentos do Pantanal.
Por isso, monitorar a onça é uma forma eficiente de medir a saúde do bioma como um todo.
Duas frentes: as câmeras e as pessoas
O diferencial do projeto está em não se limitar à contagem. O trabalho se divide em duas etapas. A primeira instala um grid de câmeras ao longo da Serra do Amolar, formando uma rede de monitoramento no corredor de biodiversidade.
Já a segunda é social: uma escuta direta das comunidades ribeirinhas que convivem com o felino, mapeando percepções e conflitos, especialmente a predação de rebanho, principal fonte de tensão entre moradores e onças.
Essa combinação responde a um problema real do Pantanal. A convivência entre pecuária e grandes felinos gera atritos, e a resposta histórica costumava ser o abate.
Ao reunir dado ecológico e percepção social, o IHP busca estratégias de coexistência que reduzam a perda de gado sem custar a vida das onças. A equipe é multidisciplinar: biólogos, médicos-veterinários, brigadistas ambientais, assistente social, auxiliares de reserva e piloteiros.
Uma história longa de monitoramento
O IHP não parte do zero. O instituto, fundado em 2002, em Corumbá, monitora felinos na região desde 2009, quando adquiriu suas primeiras armadilhas fotográficas, ainda analógicas, com rolo de filme de 36 poses e registro só no período crepuscular. A distância entre aquelas câmeras e as 40 unidades atuais, capazes de gerar 120 mil imagens catalogadas por IA, mede o salto tecnológico da conservação pantaneira em pouco mais de uma década.
Para quem visita o Pantanal em busca de fauna, projetos assim são o que sustentam, nos bastidores, a chance de avistar uma onça na natureza.
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