Acordo entre Brasil, Paraguai e Bolívia avança em modelo de gestão para dragagem e manutenção da via navegável; cientistas e ambientalistas alertam para os riscos severos ao pulso de inundação do bioma
Um megaprojeto de infraestrutura focado na expansão do transporte hidroviário na América do Sul colocou o ecossistema do Pantanal no centro de um intenso debate econômico e ecológico.
O governo federal brasileiro, em parceria com os governos do Paraguai e da Bolívia, avançou nas tratativas para consolidar um novo modelo de gestão e manutenção da hidrovia do rio Paraguai.
O plano prevê um investimento inicial robusto de R$ 63 milhões destinado a obras de dragagem, sinalização e remoção de gargalos rochosos para triplicar o volume de cargas transportadas nos próximos anos.
No entanto, a magnitude das intervenções propostas para viabilizar a navegação de grandes comboios comerciais de mercadorias — como soja, minério de ferro e combustíveis — acendeu um sinal vermelho definitivo entre cientistas, pesquisadores e defensores ambientais do bioma em Mato Grosso do Sul.
Acordo foi debatido em encontros estratégicos
A consolidação do modelo foi debatida e alinhada em encontros estratégicos liderados pelo Ministério dos Portos e Aeroportos do Brasil, contando com o suporte técnico e institucional da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e do Ministério dos Transportes, além de representantes diplomáticos da Bolívia e do Paraguai.
O plano integrado foca no trecho soberano do rio e nos trechos compartilhados, buscando garantir:
- Navegabilidade contínua de 365 dias por ano, eliminando as interrupções severas causadas pelos períodos históricos de estiagem e seca na bacia;
- Obras estruturais de dragagem e derrocamento (explosão ou remoção de pedras no fundo do leito do rio) nos pontos considerados mais críticos para a passagem de barcaças;
- Triplicação do escoamento de commodities, barateando os custos de exportação dos produtores locais e vizinhos em direção aos portos do Oceano Atlântico.
O risco de “esvaziar” o Pantanal
Essa otimização da hidrovia pode até representar um avanço financeiro imensurável para o setor produtivo e de logística. Porém, para os especialistas em conservação, o projeto pode desencadear impactos ecológicos irreversíveis sobre a maior planície alagada contínua do planeta.
O principal temor da comunidade científica reside nas obras de aprofundamento e retificação do leito do rio Paraguai.
De acordo com notas técnicas emitidas por institutos de pesquisa que monitoram a bacia pantaneira, o rio Paraguai funciona como o grande “ralo” que regula a velocidade do escoamento das águas.
O efeito “ralo”: entenda o risco ambiental
De acordo com especialistas, o grande perigo desse processo reside no chamado “efeito ralo”.
O rio Paraguai funciona como o eixo central que dita o ritmo das águas em todo o bioma. Quando se realizam obras severas de dragagem e derrocamento, o canal principal se torna mais profundo e desimpedido.
Como consequência direta, a água das cheias passa a escoar em uma velocidade muito maior em direção ao sul, reduzindo drasticamente o tempo de permanência e a área total de inundação das planícies pantaneiras.
Especialistas alertam que a quebra desse delicado pulso de inundação pode acelerar o processo de savanização do Pantanal, impactando diretamente os berçários de peixes, a sobrevivência de aves migratórias e alterando drasticamente o regime de seca e cheia de que depende toda a fauna e a atividade pecuária tradicional da região.
Equilíbrio entre desenvolvimento e sustentabilidade
O avanço do plano de R$ 63 milhões agora entra em uma fase decisiva de avaliações técnicas e licenciamentos ambientais exigidos pela legislação brasileira.
Entidades do terceiro setor e coletivos de proteção ao Pantanal cobram que os estudos de impacto ambiental (EIA/Rima) sejam feitos de maneira integrada, analisando o impacto cumulativo de toda a hidrovia ao longo do bioma, e não apenas por trechos isolados de obras.
O desafio das autoridades nos próximos meses será encontrar um ponto de equilíbrio jurídico e técnico que permita o desenvolvimento econômico de integração sul-americana sem comprometer a integridade e o futuro hídrico do ecossistema pantaneiro.