No Dia Mundial das Lontras, IHP anuncia o uso de gravadores de alta fidelidade para monitorar as "onças d'água", espécie ameaçada de extinção que já perdeu 40% de sua distribuição no Brasil
A ciência e a tecnologia uniram forças no coração de Mato Grosso do Sul para decifrar um dos códigos de comunicação mais complexos da nossa fauna.
A princípio, o monitoramento de grandes mamíferos depende exclusivamente de imagens.
Porém, o monitoramento acústico ganhou um aliado revolucionário. Nesta última quarta-feira do mês (27 de maio de 2026) — data em que se celebra o Dia Mundial das Lontras —, o IHP (Instituto Homem Pantaneiro) anunciou o recebimento de um gravador de alta fidelidade e tecnologia de ponta, projetado especialmente para capturar e registrar as interações sonoras das ariranhas na Serra do Amolar.
A ariranha (Pteronura brasiliensis) é a maior espécie da subfamília das lontras no mundo. Conhecidas popularmente como “onças d’água” por sua tremenda habilidade de caça nos rios, elas enfrentam um cenário crítico: estão classificadas como “em perigo” na Lista Vermelha da IUCN e foram definidas como “ameaçadas” na última COP15 de Espécies Migratórias.
De acordo com os dados do IHP, a redução da distribuição geográfica da espécie no Brasil já atinge a alarmante marca de 40%.
Bioacústica nas locas: investigação sem interferência humana

O grande diferencial desse novo equipamento, cedido em parceria pela empresa mineira Log Nature, é a capacidade de coletar dados brutos sem alterar em nada a rotina dos animais.
Ou seja, os gravadores de alta tecnologia serão instalados diretamente nas “locas” — nome dado aos abrigos de terra e raízes onde as ariranhas descansam, cuidam dos filhotes e se escondem quando não estão na água.
Assim, a bioacústica vai abrir uma janela inédita para a intimidade desses animais sociais, como explica Wener Hugo Moreno, coordenador de Biodiversidade do IHP:
“A bioacústica vai permitir compreendermos a dinâmica social desses animais sem interferir na rotina deles. Posteriormente, vamos conseguir decodificar vocalizações de alerta, interações territoriais e a comunicação íntima entre os membros dos grupos. É a tecnologia avançada gerando dados brutos para salvar o coração do Pantanal.”
Parceria de longo prazo e alinhamento nacional com o ICMBio
A chegada dos gravadores é o desdobramento de um rastro que começou a ser traçado anteriormente.
Em janeiro de 2025, o IHP e a Log Nature já haviam firmado um acordo focado no monitoramento das ariranhas por meio de armadilhas fotográficas na Serra do Amolar. Agora, as imagens e os áudios vão se complementar.
Sob o mesmo ponto de vista da governança ambiental, todos os dados de áudio e análises populacionais gerados no Pantanal sul-mato-grossense terão destinos estratégicos de grande impacto:
- As informações serão compartilhadas diretamente com a coordenação do Plano de Ação Nacional para Conservação da Ariranha, gerido pelo Cenap/ICMBio, do qual o IHP é membro ativo.
- Os resultados ficarão disponíveis para subsidiar políticas públicas integradas de proteção dos nossos recursos hídricos.
- Os relatórios vão servir de guia técnico para ordenar e fortalecer o turismo de observação de vida selvagem na bacia pantaneira, garantindo que os barcos e visitantes não estressem os grupos monitorados.