Poeira de minério adoece moradores e esvazia comunidade centenária do Pantanal
Conservação & Meio Ambiente

Poeira de minério adoece moradores e esvazia comunidade centenária do Pantanal

10 de julho de 2026 8 min de leitura 1 visualizações

Distrito de Corumbá, fundado com a chegada da Ferrovia Noroeste do Brasil, enfrenta nuvem constante de pó avermelhado desde 2022, quando a mineradora triplicou o escoamento de ferro pelo Rio Paraguai; população reduziu de mais de 600 para cerca de 60 famílias.

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Porto Esperança nasceu junto com os trilhos. O distrito de Corumbá se fixou às margens do rio Paraguai desde a chegada da Ferrovia Noroeste do Brasil, no início do século passado, e por décadas viveu do ritmo lento do pantanal: a pesca, o barco, o silêncio dos corixos. Até que a estrada chegou.

Até 2022, o minério chegava ao porto pela ferrovia, em menor escala, sem interferir no sossego do povoado. O acesso pela estrada coincidiu, naquele ano, com a venda da Mineração Corumbaense (Vale) ao grupo J&F Mineração, e a partir de então o escoamento do minério pelo porto mais que dobrou, sob a administração da subsidiária LHG Mining. Em 2022, foram exportados 2,9 milhões de toneladas; já em 2025, 5,6 milhões de toneladas.

O que era promessa de conexão virou pesadelo. Hoje, Porto Esperança é coberta por uma nuvem constante de pó avermelhado, e a comunidade que resistiu por mais de cem anos às enchentes do Paraguai não sabe se vai resistir a isso.

Foto: Saul Schramm

Uma rotina tomada pela poeira

A rotina de moradores de Porto Esperança tem sido marcada por uma nuvem constante de poeira de minério que cobre casas, plantações e até a água de consumo. O pó fino, levantado diariamente pelos caminhões que transportam minério de ferro das minas do Morro Urucum ao Porto Gregório Curvo, invade casas e localidades ribeirinhas, causando doenças como asma, bronquite, rinite, irritação nos olhos e dermatites. Distúrbios do sono são associados ao barulho ininterrupto das máquinas e caminhões.

Ao procurarem a Justiça, os ribeirinhos de Porto Esperança expuseram uma situação de calamidade: 300 caminhões bitrens trafegando por 24 horas, desde as minas do Morro Urucum, levando minério de ferro para o Porto Gregório Curvo. Imagens anexadas às denúncias mostram móveis e eletrodomésticos cobertos por pó de minério, além da estrada tomada por caminhões.

Em alguns momentos, ocorre congestionamento no trevo para o terminal e a fila é extensa — são mais de 50 veículos parados, fechando a estrada.

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A Justiça que não chegou

Os moradores tentaram o caminho legal. E encontraram uma barreira que poucos esperavam.

O juiz Jessé Cruciol Junior, da 2ª Vara Cível de Corumbá, extinguiu uma das ações movidas individualmente pelos ribeirinhos do distrito de Porto Esperança, que denunciava os impactos ambientais e à saúde causados pelo tráfego excessivo de caminhões.

Isso porque os moradores não conseguiram comprovar domicílio em uma área da União, na beira do rio Paraguai, ocupada secularmente e sem titulação.

Em sua sentença, o juiz tomou a decisão sem discutir o mérito, alegando que a apresentação de um documento que vincule os denunciantes ao lugar seria imprescindível para legitimar a ação. Jesse Junior também negou o pedido de gratuidade da Justiça.

É o tipo de paradoxo cruel que o Pantanal não merecia: uma comunidade centenária, que existe há mais de cem anos às margens do rio Paraguai, impedida de se defender judicialmente porque não tem papéis que provem que mora onde sempre morou.

Estrada até Porto Esperança. Foto: Saul Schramm

O MPE entrou em campo

Depois da extinção das ações na esfera civil, o Ministério Público Estadual decidiu agir. O MPE instaurou inquérito administrativo para acompanhar e fiscalizar os impactos gerados às comunidades e ao meio ambiente com a atividade mineral em Corumbá, com base em denúncias dos moradores dos distritos de Maria Coelho e Porto Esperança. Uma nova perícia técnica será realizada para aprofundar a análise dos eventuais impactos ambientais e à saúde coletiva. Outra medida será a notificação da empresa envolvida para prestar informações sobre as medidas de controle da emissão de material particulado decorrente do transporte de minério.

Além disso, o drama foi debatido durante audiência pública em Corumbá, realizada pelo Imasul, órgão do governo estadual. Com o Centro de Convenções do Pantanal superlotado, o evento abordou os impactos ambientais e sociais do projeto de expansão do terminal privativo Gregório Curvo, que opera em Porto Esperança há 47 anos.

No entanto, moradores relataram que não houve espaço real para diálogo: as perguntas eram lidas e respondidas de forma protocolar, sem permitir debate.

Uma comunidade que encolheu

O resultado de anos de pressão, seja pela poeira, pelo barulho, pelas dificuldades de acesso ou pelas ofertas de compra de terrenos, é visível nos números. 

Embora a mineradora e seus aliados não tenham obtido despejo ou expulsão formal dos ribeirinhos, foi verificado um encolhimento demográfico de mais de 600 famílias para cerca de 60 a 80.

O distrito de Porto Esperança, distante 80 km da zona urbana do município-sede Corumbá, reduziu-se significativamente em decorrência de “pressões difusas” por parte da classe dominante e da grilagem de áreas por parte do agronegócio. As cerca de 80 famílias que permanecem no local sofrem com ofertas de compra irregulares abaixo do mercado de seus terrenos, isolamento progressivo e ameaças e conflitos fundiários.

Membros do grupo ECOA — Ecologia e Ação — dizem que há táticas “mal disfarçadas” para a tomada do espaço mineral da comunidade.

O que a mineradora diz

A LHG Mining não está ignorando o problema — ao menos publicamente. A empresa se comprometeu a minimizar os impactos ambientais, implantando um sistema de aspersão numa extensão de 4 km da estrada, com quatro caminhões-pipa operando diariamente.

Além disso, a empresa realizou intervenções em 3 km da via alternativa de acesso a Porto Esperança, instalou quebra-molas e reforçou a sinalização viária. Na área de educação, apoia uma reforma da escola municipal local.

Em nota, a empresa afirma manter “uma relação próxima com a comunidade de Porto Esperança, pautada na escuta ativa e no compromisso de atuar em benefício dos moradores.”

No entanto, a LHG não tem planos de médio prazo para contornar a situação de fundo: a empresa prevê substituir o transporte rodoviário pelo ferroviário somente em 2029, quando concluir a expansão e modernização do porto.Até lá, com metas de ampliar as exportações, a comunidade segue convivendo com a poeira.

E os planos de expansão são ambiciosos: a LHG Mining apresentou projeto para elevar a produção anual para 25 milhões de toneladas — o que, segundo os moradores, pode intensificar ainda mais os impactos.

O SOS que virou música

Reprodução Instagram Moacir Lacerda – Grupo Acaba

Quando a Justiça não chegou e o poder público tardou, a comunidade encontrou outra forma de ser ouvida: a arte.

O músico Moacir Lacerda, do grupo ACABA, do Mato Grosso do Sul, compôs a canção SOS Porto Esperança — um retrato em versos do que está acontecendo no distrito. A letra fala do rio que era de todos, dos bichos que foram embora, dos homens e mulheres que sofrem “no abandono da nação”, e das embarcações que descem o Paraguai “levando riqueza para além” sem deixar futuro para quem ficou.

A canção circula nas redes e se tornou símbolo da resistência de uma comunidade que não quer ir embora — e que recusa a ideia de que progresso e destruição precisam ser a mesma coisa.

“Será outra Mariana perdida?
Será mais um lugar a acabar?
Socorro pedem os ribeirinhos,
Clamam aos homens e ao mar.
Clamam aos deuses do Pantanal,
À memória de um tempo melhor,
Quando havia fartura e alegria,
E a esperança era maior”.

O que isso significa para o Pantanal

Porto Esperança não é um caso isolado. É um retrato em miniatura de uma tensão que atravessa todo o Pantanal: a disputa entre o valor econômico dos recursos naturais e o valor de um ecossistema que, uma vez degradado, dificilmente se reconstrói.

Corumbá e Ladário formam o principal polo extrativo de ferro e manganês de Mato Grosso do Sul. Abrigam a maior reserva nacional de manganês de alto teor e o terceiro maior depósito de ferro do Brasil, em especial nas minas do Maciço do Urucum. São recursos estratégicos e que geram empregos reais para a região. Mas o custo ambiental e humano precisa ser parte da conta.

O Pantanal que a gente ama não é só paisagem. São as comunidades ribeirinhas que vivem dele, os jacarés que aparecem nos corixos, os pássaros que acordam junto com o sol. Quando uma comunidade centenária encolhe de 600 para 60 famílias por causa de poeira de minério, alguma coisa errada está acontecendo — e merece ser dita em voz alta.

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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