Quem caminha pelo Casario do Porto, em Corumbá, sempre teve a sensação de estar passando por uma página de história sem saber exatamente o que está lendo. Agora, basta tirar o celular do bolso para que essa página se abra.
Na terça-feira, 23 de junho, a Prefeitura de Corumbá, por meio da Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico (Fuphan), lançou o projeto “Corumbá a Pé – QR Code”, uma iniciativa que usa tecnologia simples e acessível para aproximar moradores e turistas da história que está literalmente nas paredes da cidade.
Como funciona

A ideia é direta: placas com QR Codes foram instaladas em 17 edificações históricas do município. Ao apontar a câmera do celular para o código, qualquer pessoa — moradores, estudantes, pesquisadores ou turistas — acessa informações sobre a história, as características arquitetônicas e a importância cultural daquele imóvel específico.
Sem aplicativo para baixar, sem cadastro, sem fricção. É o tipo de tecnologia que funciona exatamente porque é simples e que transforma uma caminhada despretensiosa pelo centro histórico numa experiência guiada, no ritmo de quem está passando por ali.
E o projeto não para nas 17 primeiras: a Fuphan já conseguiu aprovação para a instalação de placas em mais 25 imóveis, o que deve ampliar significativamente a cobertura do centro histórico nos próximos meses.
Uma parceria entre prefeitura, universidade e Iphan
O projeto nasceu da combinação entre poder público e pesquisa acadêmica. A iniciativa foi desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), por meio do projeto de iniciação científica “Materialidade e espacialidade das fachadas históricas de Corumbá – MS”, conduzido pelo Campus do Pantanal (UFMS/CPAN), e contou também com a participação do Escritório Técnico do IPHAN em Mato Grosso do Sul.
Essa combinação é o que dá ao projeto sua credibilidade histórica: o conteúdo que aparece em cada QR Code não é genérico, é fruto de pesquisa documental sobre as fachadas, a arquitetura e a trajetória de cada construção.
Por que o Casario do Porto é tão importante
Para quem não é de Corumbá, vale entender por que esse projeto faz tanto sentido justamente ali.
O Casario do Porto foi tombado como patrimônio histórico em 28 de setembro de 1993, e corresponde à área do antigo porto da cidade e à Rua do Comércio — hoje Rua Manoel Cavassa.
A importância da região remonta à própria formação da cidade. Corumbá foi fundada em 1778 pelo então capitão-general Luiz de Albuquerque, mas foi destruída durante a invasão paraguaia em 1865, no contexto da Guerra do Paraguai.
A reconstrução que se seguiu, e o posterior crescimento da cidade como entreposto comercial estratégico na Bacia do Prata e no Rio Paraguai, deixaram um conjunto arquitetônico que mistura influências históricas raras de se encontrar reunidas num só lugar no Centro-Oeste brasileiro.
Pesquisas acadêmicas recentes sobre as fachadas do Casario já vinham apontando justamente para isso: cada fachada funciona como uma fonte histórica, capaz de contar uma trajetória que, sem contexto, passa despercebida por quem caminha pela rua.
Mais do que turismo: educação patrimonial
O projeto não foi pensado apenas para visitantes. A iniciativa integra ações de educação patrimonial, com o objetivo de fortalecer a identidade cultural da própria população local — e não apenas atrair olhares externos.
Há uma lógica simples por trás disso: quem entende a história de um lugar tende a se importar mais com sua preservação. Ao democratizar o acesso à informação sobre os bens protegidos, o “Corumbá a Pé” também trabalha, de forma indireta, a favor da própria conservação desses imóveis, incentivando que moradores e visitantes vejam essas construções não como pano de fundo, mas como patrimônio vivo.
O que isso significa para quem visita Corumbá
Para quem já visita ou pretende visitar a “Cidade Branca”, o projeto chega como um upgrade e tanto na experiência. Em vez de fotografar o Casario sem saber exatamente o que está vendo, agora é possível caminhar pelo centro histórico com uma camada extra de profundidade, descobrindo, prédio por prédio, os detalhes que tornam aquele conjunto arquitetônico tão particular.
É outro motivo para incluir uma boa caminhada pelo centro histórico no roteiro de quem vai a Corumbá, seja para conhecer o Pantanal, seja para aproveitar a vida de fronteira com a Bolívia.