Em junho de 2026, enquanto delegados de dezenas de países se reuniam em Bonn, na Alemanha, para a rodada de negociações climáticas da ONU em preparação à COP31, uma organização com raízes fincadas no Pantanal de Mato Grosso do Sul entrou em cena. O SOS Pantanal apresentou ao mundo como o fogo (aquele que em 2020 consumiu 3,9 milhões de hectares do nosso bioma) pode ser manejado com ciência, conhecimento de comunidades locais e políticas públicas.
A participação aconteceu nas chamadas “June Climate Meetings (SB64)”, pré-conferência oficial da UNFCCC (sigla em inglês para United Nations Framework Convention on Climate Change) realizada entre 8 e 18 de junho. O tema central levado pelo instituto é o Manejo Integrado do Fogo, uma abordagem que substitui a lógica da resposta emergencial pela prevenção e pelo uso ecológico controlado do fogo.
O que é Manejo Integrado do Fogo — e por que o Pantanal é o melhor argumento

O Manejo Integrado do Fogo combina monitoramento tecnológico, ciência e saberes tradicionais para transformar o fogo de catástrofe em ferramenta.
Em vez de apagar o incêndio depois que ele começa, a ideia é reduzir o combustível disponível, preparar as comunidades e, em alguns casos, usar queimas controladas que limpam a vegetação seca antes da estação crítica.
No Pantanal, o SOS Pantanal aplica esse modelo com o Sistema Aracuã, plataforma de monitoramento de focos de incêndio que foi apresentada na COP28, em Dubai, dentro de um painel da Organização Meteorológica Mundial. O sistema é parte de uma estrutura maior que inclui treinamento de brigadas locais e restauração de áreas degradadas.
O resultado mais doloroso da ausência desse manejo está na memória recente: em 2020, uma combinação de seca histórica e falta de prevenção transformou o Pantanal em cinza. Foram 3,9 milhões de hectares queimados, a maior área destruída em um único ano desde que os registros sistemáticos começaram. É desse ponto que o SOS Pantanal parte quando faz advocacy no cenário climático internacional.
Três COPs e um chamado que já tem 67 países
A atuação do instituto nas grandes conferências climáticas ganhou consistência ao longo dos últimos anos. Na COP29, em Baku (2024), o SOS Pantanal mediou um painel oficial no pavilhão do Brasil sobre Manejo Integrado do Fogo nos biomas brasileiros. Em Belém, durante a COP30 (2025), ajudou a dar visibilidade ao “Chamado à Ação pelo Manejo Integrado do Fogo e Resiliência a Incêndios Florestais”, documento que, até 2025, já havia sido endossado por 67 países e quatro organizações internacionais.
Em Bonn, o passo foi avançar da promessa para a implementação. O painel “From Action to Implementation: Scaling Fire Solutions to Reduce Wildfire Emissions”, organizado em conjunto com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), a Uma Gota no Oceano e o Hub Global de Manejo do Fogo da FAO, apresentou caminhos concretos: como conectar governos, organizações da sociedade civil e comunidades locais para que o manejo saia do compromisso e chegue ao campo antes da COP31, marcada para novembro de 2026, em Antalya, na Turquia.
Campo Grande já foi palco, e o Pantanal segue no centro

Para quem acompanha a agenda ambiental de Mato Grosso do Sul, a conexão entre o bioma e os grandes fóruns internacionais não é novidade. Em março de 2026, a COP15 para a Conservação das Espécies Migratórias aconteceu em Campo Grande — reunindo representantes de mais de 130 países na capital do estado. Naquele evento, o SOS Pantanal destacou as brigadas de incêndio e a restauração de habitats como ferramentas essenciais para proteger as espécies que usam o Pantanal como rota migratória.
Agora, o Pantanal vai a Bonn, vai a Antalya, vai onde as decisões sobre o clima do planeta são tomadas — não como vítima passiva das mudanças, mas como um bioma que já desenvolveu respostas práticas ao problema.
O que muda na prática para quem vive e visita o Pantanal
Para turistas e operadores locais, a discussão pode parecer distante. Mas o Manejo Integrado do Fogo tem efeito direto na experiência de quem visita o Pantanal: menos fumaça no céu durante a seca, mais fauna disponível para avistamento, fazendas e pousadas com menor risco de perda durante os meses críticos.
Para as comunidades que vivem no bioma, como peões, ribeirinhos e povos indígenas, a diferença é ainda mais concreta. A proposta em discussão envolve colocá-los como protagonistas da gestão do território, não apenas como espectadores de incêndios que não puderam evitar.
O SOS Pantanal começa esse segundo semestre de 2026 com novo diretor executivo: Júlio César Sampaio, com trajetória em organizações como CIFOR-ICRAF e WWF-Brasil, assume com a missão de manter a presença no campo enquanto fortalece o advocacy internacional. A continuidade do trabalho nas brigadas, na restauração e na segurança hídrica das comunidades pantaneiras segue como prioridade.
Com a COP31 se aproximando e o Pantanal no centro da agenda climática global, novembro de 2026 pode ser o momento em que os compromissos firmados em Bonn precisam mostrar o que valem.
SERVIÇO:
– COP31: novembro de 2026, Antalya, Turquia
– SOS Pantanal: sospantanal.org.br
– Acompanhe destinos e trilhas do Pantanal de MS: AQUI