‘Anta é elogio’: documentário celebra 30 anos de pesquisa e estreia em Campo Grande nesta terça (28)
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‘Anta é elogio’: documentário celebra 30 anos de pesquisa e estreia em Campo Grande nesta terça (28)

27 de julho de 2026 6 min de leitura 1 visualizações

"Anta – O Filme" chega à capital sul-mato-grossense, sede da INCAB, projeto que já capturou 571 antas e monitorou 160 com colares de telemetria; em 80 minutos, o longa percorre cinco biomas para mostrar por que a jardineira da floresta é indispensável para o futuro das florestas brasileiras

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Você, assim como a gente, ama ver a anta atravessando a rua tranquilamente, como se o asfalto fosse mais uma trilha no meio do Cerrado, né?

Então, prepare-se que o maior mamífero terrestre da América do Sul também vai estar nas telas, a partir desta terça-feira (28).

O documentário “Anta – O Filme” celebra três décadas de trabalho da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (Incab), projeto do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas) e o mais duradouro e abrangente sobre a espécie no país. A exibição em Campo Grande, marcada para as 19h na avenida Mato Grosso, 1661, não é por acaso: a capital sul-mato-grossense abriga a sede da INCAB, e é daqui que parte boa parte da pesquisa que o filme retrata.

Uma jornada por cinco biomas

Foto: Lucas Ninno

O fotógrafo e jornalista João Marcos Rosa, colaborador frequente da National Geographic Brasil, dirigiu o longa de 80 minutos e acompanha pesquisadores que dedicaram décadas à conservação da anta brasileira (Tapirus terrestris) percorrendo Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.

“O filme ‘Anta’ vai muito além de contar a história de uma espécie. Ele mostra as conexões que fazem o mundo girar, muitas vezes invisíveis, mas sempre presentes e muito humanas”, explica o diretor. No centro da narrativa está a bióloga Patrícia Medici, engenheira florestal que estuda antas há mais de 30 anos e lidera o maior banco de dados sobre a espécie no mundo.

Ao lado de Patrícia, o documentário também apresenta o assistente de campo José Maria Aragão, o Zé, que acompanha o projeto desde o início e representa os tantos nomes que sustentam a pesquisa de campo longe dos holofotes.

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“Anta é elogio.” A frase afirmativa transformada em lema e adesivo pela equipe da INCAB-IPÊ é um teaser da mensagem apresentada no filme e diz muito sobre a missão que a equipe abraçou: mudar a percepção pública sobre um animal que, durante décadas, foi subestimado e pouco compreendido.

O que a Incab descobriu em 30 anos

A Incab começou em 1996, quando havia pouquíssimas informações sobre a anta, construindo esse conhecimento inicialmente na Mata Atlântica, no estado de São Paulo, e expandindo mais de uma década depois para os diversos biomas em que a espécie é encontrada.

Três décadas depois, os números impressionam. O projeto já capturou 571 antas, monitorou 160 por meio de colares de telemetria satelital e identificou e monitorou 600 indivíduos por meio de armadilhas fotográficas espalhadas por todo o país.

Os dados gerados também mudaram a ciência. 

Ao contrário do que se pensava, os pesquisadores descobriram que as antas são poligâmicas e mapearam comportamentos e rotas de deslocamento que hoje fundamentam políticas de conservação e planejamento de passagens de fauna em rodovias.

A jardineira da floresta e o que acontece sem ela

Foto: João Marcos Rosa

A anta não é apenas grande e carismática. Ela é ecologicamente indispensável.

A anta brasileira pode pesar entre 180 e 300 kg e é vital para a biodiversidade por seu papel como dispersora de sementes. Por isso, recebe o título de jardineira da floresta. Além disso, por ocupar extensas áreas de uso, é uma espécie guarda-chuva: sua conservação influencia na existência de outras espécies que compartilham o mesmo habitat.

“É um animal que, se removido do ambiente, perde-se o papel de dispersão de sementes desempenhado com maestria pela anta. Se esse trabalho não for realizado intuitivamente pelo animal, as florestas não serão as mesmas”, explica Patrícia Medici.

Em outras palavras: sem anta, não há floresta. Ao se alimentar de frutos e caminhar por grandes distâncias, a anta espalha sementes de espécies que dependem dela para se reproduzir e colonizar novos territórios. É um serviço ecossistêmico que nenhuma tecnologia consegue replicar.

As ameaças que o filme não esconde

O documentário não se esquiva dos desafios. Desmatamento, perda de habitat, contaminação por agrotóxicos e atropelamentos em rodovias estão entre os principais fatores que ameaçam a espécie.

Os números dos atropelamentos em MS são especialmente impactantes. Em apenas sete trechos de estradas de Mato Grosso do Sul, no período de três anos de monitoramento iniciados em 2013, os pesquisadores da INCAB encontraram 117 antas mortas por atropelamento, inclusive filhotes. 

Isso equivale a uma média de quase quatro indivíduos por mês, em uma extensão de cerca de 1.450 quilômetros de rodovias. No mesmo período, foram registrados 14 óbitos de pessoas envolvidas em colisões com antas.

A anta tem ciclo reprodutivo muito longo: são 13 a 14 meses de gestação para um único filhote, que pode sobreviver ou não. Isso significa que cada animal perdido representa um impacto que leva anos para ser compensado na população.

Antas urbanas — o projeto que Campo Grande inspira

A relação entre Campo Grande e as antas vai além da paisagem dos parques. Desde 2021, pesquisadores da Incab desenvolvem o Projeto Antas Urbanas, iniciativa que monitora os animais que vivem e circulam dentro da cidade.

Até agora, quatro antas já foram acompanhadas pela equipe. Moradores de Campo Grande também participam ativamente, enviando fotos, vídeos e informações sempre que encontram um animal pelas ruas ou parques, dados que ajudam os pesquisadores a entender como a espécie utiliza o ambiente urbano e quais medidas podem aumentar sua proteção.

É um projeto que mostra, na prática, que conservação e cidade podem coexistir, e que Campo Grande, com sua rica fauna urbana, tem muito a contribuir para esse entendimento.

A última exibição exclusiva antes da circulação nacional

Depois de passar pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, Campo Grande recebe a última exibição exclusiva para convidados. Na sequência, o documentário começa a circular pelo país em sessões abertas ao público.

“O fato de termos, aqui no nosso país, um projeto deste porte e com esta longevidade é absolutamente incrível e razão suficiente para enorme orgulho e celebração”, afirma Patrícia Medici.


SERVIÇO
📅 Terça-feira, 28 de julho de 2026
🕖 19h
📍 Avenida Mato Grosso, 1661 — Centro, Campo Grande
🎟 Classificação livre

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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