Rio Paraguai segue abaixo da média, mas em nível normal em MS
Notícia

Rio Paraguai segue abaixo da média, mas em nível normal em MS

28 de junho de 2026 5 min de leitura 1 visualizações

O rio Paraguai está 192 cm abaixo da mediana histórica em Ladário, mas segue dentro da faixa normal — entenda o que isso diz sobre a seca no Pantanal.

Publicidade

Em Ladário, principal referência hidrológica do nosso Pantanal, o rio Paraguai marcou 249 centímetros na manhã de 24 de junho — 192 centímetros abaixo da mediana histórica para a data, que é de 441 centímetros.

À primeira vista, o número assusta. Mas, segundo o Boletim de Monitoramento Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai, divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), a cota está dentro da faixa que os hidrólogos classificam como normal para o período: entre 198 e 538 centímetros.

Em Porto Murtinho, no extremo sul da planície, o cenário se repete: 337 centímetros registrados, 181 centímetros abaixo da mediana histórica (518 centímetros), mas ainda dentro do intervalo normal, que varia de 294 a 730 centímetros. Os rios Cuiabá, Aquidauana e Miranda seguem o mesmo padrão.

Rio baixo não é uma crise isolada

Para quem vive ou visita o Pantanal, é fácil confundir “abaixo da média” com “situação de emergência”. Não é o caso aqui, mas o contexto importa.

Desde 2019, a dinâmica das águas na nossa região mudou de forma significativa. Onde antes predominavam grandes cheias, como nos anos 1980, hoje o padrão é de secas prolongadas, intercaladas por recuperações parciais.

Os dados do MapBiomas Água ajudam a entender a escala da mudança: o Pantanal encerrou 2025 com 679 mil hectares de superfície de água, 56% abaixo da média histórica de 1,56 milhão de hectares calculada entre 1985 e 2025.

Publicidade

Na prática, foi uma recuperação de 34% em relação a 2024, ano da pior seca já registrada na série histórica do bioma, com apenas 506 mil hectares de água. Ainda assim, 2025 foi o único ano, entre todos os biomas brasileiros, em que todos os doze meses ficaram abaixo da média histórica de superfície hídrica.

“A dinâmica das águas no Pantanal mudou. A década de 1980 foi marcada por grandes inundações, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas. Os períodos secos e úmidos são essenciais para a manutenção da biodiversidade do bioma”, explica Mariana Dias, pesquisadora da equipe Pantanal do MapBiomas.

Segundo o mesmo levantamento, Corumbá foi o município que mais perdeu superfície de água em todo o Brasil em 2025: uma redução de 474 mil hectares, equivalente a uma queda de 56,7% em relação à média histórica do município. Aquidauana também aparece entre os mais afetados, com retração de 69,7%.

O que muda na prática para quem vive do Pantanal

Níveis mais baixos do rio Paraguai não são só um número em um boletim técnico, eles se traduzem em rotina concreta para quem trabalha e visita a região.

Isso porque a navegabilidade da hidrovia fica mais sensível a trechos rasos, exigindo atenção redobrada de embarcações de carga e de passeio entre Corumbá e Porto Murtinho.

Para o turismo de pesca e os passeios de barco, água mais baixa costuma concentrar peixes e outros animais em poços e corredores mais profundos, o que pode tornar certos passeios de observação de fauna mais previsíveis, mas também exige guias atentos às mudanças de canal.

A Embrapa Pantanal já vinha sinalizando esse cenário: um levantamento publicado em maio apontou que a cheia de 2026 permanece abaixo da média histórica, com “impactos potenciais sobre atividades produtivas, a exemplo da reprodução dos peixes”, um alerta direto para quem depende da piracema e da pesca esportiva na região.

Há também o lado da prevenção: estiagens prolongadas elevam o risco de incêndios na vegetação nativa do Pantanal, o que mantém o Corpo de Bombeiros e o Imasul em estado de atenção redobrada nos meses mais secos do ano, tradicionalmente entre julho e setembro, justamente o período que se inicia agora.

O que diz o boletim sobre os próximos dias

O SGB aponta tendências distintas ao longo do curso do rio: em Cáceres (MT), a montante de Ladário, a cota tem subido; já em Porto Murtinho, a jusante, a tendência é de queda. Nos últimos sete dias, Ladário subiu 3 centímetros e Porto Murtinho recuou 3 centímetros — variações pequenas, que reforçam o cenário de estabilidade.

Sobre as chuvas, o órgão informa que o acumulado entre novembro de 2025 e maio de 2026 ficou equivalente à média histórica da bacia entre 1998 e 2025.

Para os próximos sete dias, a previsão é de chuva média de 5 milímetros, com os maiores volumes esperados na região de Palmeiras (até 12 milímetros) e os menores em Cuiabá (2 milímetros). Em Ladário, a expectativa é de estabilidade no curto prazo, com possível queda de até 2 centímetros em 14 dias.

Ou seja: nem alívio, nem alarme.

O Pantanal segue no mesmo compasso de seca controlada que marca a região desde 2024 — mais estável que o ano da pior crise hídrica já registrada, mas ainda longe da abundância de água que definiu o bioma ao longo de décadas.

SERVIÇO

O Boletim de Monitoramento Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai é divulgado periodicamente pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) e reúne dados de cotas em estações entre Barra do Bugres (MT) e Porto Murtinho (MS). Quem acompanha de perto o nível do rio, como pescadores, condutores de turismo náutico, produtores rurais, pode consultar as atualizações diretamente no portal do SGB.

Para quem quer ver de perto como a seca e a cheia moldam a paisagem pantaneira, vale a visita: muitos dos passeios de observação de fauna em Corumbá, Ladário e ao longo do rio Miranda ficam ainda mais reveladores nesta época do ano, quando os animais se concentram perto da água que resta. Confira opções de roteiros e operadoras na seção de destinos do Pantanal do nosso portal.

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
Publicidade