O Pantanal mostrado ao turista não se resume à planície alagada, à pesca e aos animais silvestres. Também é negro, religioso e ancestral. E agora essa história, que durante muito tempo esteve ausente dos roteiros tradicionais, chegou à vitrine do turismo nacional.
O Circuito Kaô de Xangô, roteiro de afroturismo que conecta visitantes, moradores e devotos às manifestações que celebram o sincretismo do Banho de São João e ao patrimônio vivo de Corumbá, é um dos 34 projetos finalistas da edição de 2026 do Prêmio Braztoa de Sustentabilidade.
Reconhecido pela Organização Mundial do Turismo, o prêmio foi criado em 2012 pela Associação Brasileira das Operadoras de Turismo com o propósito de identificar, reconhecer e valorizar iniciativas que unem turismo, inovação e responsabilidade socioambiental. Os 34 finalistas estão distribuídos por 13 estados e contemplam as cinco macrorregiões do país.

A primeira agência de afroturismo de MS
Por trás do Circuito Kaô de Xangô está Thayná Cambará, empreendedora corumbaense que criou a Bela Oyá Pantanal, a primeira agência receptiva de afroturismo de Mato Grosso do Sul.
O nome não é aleatório. Oyá é uma orixá do candomblé associada aos ventos, às tempestades e à transformação, uma referência que dialoga diretamente com o que Thayná propõe: transformar a invisibilidade histórica do Pantanal Negro em experiência turística, identidade e renda para quem mantém essa cultura viva.
“Estar entre os 34 finalistas é uma conquista muito especial para nós. Chegar a essa etapa mostra que um trabalho que nasce em Corumbá, da nossa ancestralidade, dos povos de terreiro e da valorização do Pantanal Negro pode ocupar espaços importantes do turismo nacional. Mais do que um reconhecimento, eu vejo essa conquista como uma honra a quem veio antes de nós e manteve esses saberes, essas tradições e esse patrimônio vivos”, afirma Thayná.
O que é o Circuito Kaô de Xangô
O roteiro propõe uma imersão nas manifestações culturais e religiosas ligadas ao Banho de São João, celebração realizada tradicionalmente entre os dias 22 e 23 de junho e reconhecida, desde 2021, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
A experiência inclui participação no cortejo com a imagem de São João, passagem pela Ladeira Cunha e Cruz, visita à casa de festeiros e contato com a gastronomia de terreiro. Ao longo do percurso, o visitante acompanha as ladainhas e os ritmos que lembram o frevo ao som da banda de sopro, numa celebração que une fé, ancestralidade e cultura afro-brasileira.
O Banho de São João é registrado em Corumbá desde o fim do século 19. É um dos eventos mais singulares do calendário cultural de MS e um dos menos conhecidos fora do estado.
O Pantanal Negro que o turismo ainda não conhece direito
Para entender por que esse roteiro importa, é preciso entender Corumbá. A cidade tem mais de 73% de população afrodescendente, segundo o censo do IBGE, e abriga cerca de 400 terreiros de umbanda e candomblé. É um dos municípios com maior presença afro-brasileira do Centro-Oeste e um dos menos associados a essa identidade quando o assunto é turismo.
“Nosso propósito não é apenas levar visitantes para conhecer uma experiência. É fazer com que o turismo reconheça quem construiu essa história, gere oportunidades para quem mantém essa cultura viva e ajude a colocar Corumbá e o Pantanal Negro em novas narrativas do turismo brasileiro”, afirma Thayná.
Para o diretor-presidente da Fundação de Turismo do Pantanal, Zelinho Carvalho, o projeto transforma memória e tradição em experiência turística concreta: “Valorizamos sempre um turismo mais diverso, inclusivo, sustentável e conectado à nossa identidade.”
Da WTM ao documentário Pantanal Negro
O reconhecimento do Prêmio Braztoa não é o único movimento que coloca o afroturismo de Corumbá no mapa nacional. Em abril de 2026, a Bela Oyá Pantanal marcou presença na WTM Latin America, um dos maiores eventos de turismo da América Latina, com três ações principais: apresentação do Circuito Kaô de Xangô como modelo de turismo comunitário no espaço do Sebrae Nacional, um talk sobre afroturismo brasileiro e o pré-lançamento do documentário Pantanal Negro.
O documentário, ainda sem data de estreia confirmada, promete dar ainda mais visibilidade à história que Thayná e a Bela Oyá Pantanal vêm construindo, e colocar o Pantanal Negro numa tela que o Brasil inteiro vai poder ver.
“É o ponto de virada”
Thayná é direta ao avaliar o momento: “O afroturismo no Pantanal está transformando histórias em oportunidades e modelo de negócios, expandindo serviços e gerando pertencimento, inovação e valorização do território e do patrimônio. A cultura pode ser uma estratégia de desenvolvimento econômico. É o ponto de virada”.
A frase resume bem o que o Circuito Kaô de Xangô representa, não apenas como produto turístico, mas como afirmação de que Corumbá tem muito mais a oferecer do que o Pantanal que o turismo convencional aprendeu a vender.
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