Cartilha resgata memória ferroviária de Campo Grande com ilustrações de Sara Welter
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Cartilha resgata memória ferroviária de Campo Grande com ilustrações de Sara Welter

27 de junho de 2026 6 min de leitura 0 visualizações

"Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário" será lançada em 3 de julho no Casarão Thomé e reúne 12 locais do antigo Complexo Ferroviário da NOB em desenhos originais e pesquisa histórica; material será distribuído gratuitamente em escolas e bibliotecas, incluindo exemplares em braille

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Tem uma frase que resume bem o espírito de Campo Grande: a cidade nasceu junto com os trilhos. E agora, essa memória que muita gente atravessa todos os dias sem perceber — em prédios abandonados, vagões parados, casarões silenciosos — ganha um registro definitivo em forma de arte.

No dia 3 de julho, a partir das 17h, no Casarão Thomé, será lançada a cartilha “Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário”, da artista visual campo-grandense Sara Welter, conhecida como Syunoi. O evento é gratuito e promete reunir história, ilustração, teatro e música numa só noite dedicada à memória ferroviária que ajudou a formar a capital e o próprio Mato Grosso do Sul.

O que é a cartilha

Reprodução: Prefeitura de Campo Grande

A publicação tem foco no Complexo Ferroviário da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), conjunto tombado pelo Iphan e considerado um dos principais marcos do desenvolvimento econômico e social de Campo Grande.

Além de contar essa trajetória, o material também aborda a imensidão da própria NOB, ferrovia que atravessa todo o estado de Mato Grosso do Sul e que moldou a formação de diversas outras cidades pelo caminho.

A cartilha reúne pesquisa histórica e ilustrações autorais sobre 12 locais ligados à trajetória ferroviária sul-mato-grossense:

  • Estação Ferroviária
  • Casarão Thomé
  • Casa da Chefia
  • Casa dos Empregados
  • Caixa D’Água da NOB
  • Antiga baldeação para Ponta Porã
  • Vagões abandonados que ainda restam pela cidade

E mais cinco espaços que completam o conjunto retratado na publicação, com testemunhas silenciosas de uma época que definiu o que Campo Grande se tornaria.

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A técnica por trás dos desenhos

Sara optou por desenhos em nanquim e carvão, materiais que permitem destacar rachaduras, sombras e marcas deixadas pelo tempo sobre as construções. A escolha não é apenas estética, é narrativa: cada traço reforça a ideia central do projeto, que é mostrar como o tempo age sobre o patrimônio histórico, e por que vale a pena preservá-lo antes que o abandono vença.

O processo de produção foi longo e cuidadoso. Foram dois meses de pesquisa histórica, analisando arquivos, relatos e estudos sobre a ferrovia e os edifícios que marcaram a formação urbana da cidade. Depois vieram três meses dedicados à produção dos desenhos, e mais um mês de diagramação, organizando textos, imagens e memórias no formato final do material educativo.

Como a própria artista resume: “Sabemos o quanto a ferrovia influenciou a construção do que é ser campo-grandense e sul-mato-grossense. A intenção é abrir os olhares para tudo isso e permitir que cada pessoa tenha um novo entendimento sobre essa história.”

Acesso ampliado: braille, escolas e oficinas

Um dos diferenciais mais bonitos do projeto é o compromisso com a acessibilidade. A cartilha será distribuída gratuitamente para escolas, bibliotecas e instituições culturais, incluindo exemplares em braille, uma escolha que amplia o alcance da iniciativa para além do público que normalmente frequenta exposições e lançamentos culturais.

Além da distribuição, o projeto prevê oficinas educativas em escolas municipais, utilizando o material como ferramenta de educação patrimonial. A ideia é que crianças e adolescentes não apenas recebam a cartilha, mas também entendam, na prática, por que aquele casarão ou aquela estação continuam de pé e por que merecem ser cuidados.

Segundo Sara, a motivação por trás dessa preocupação com acesso vem de uma observação simples: “Existe uma curiosidade sobre a história desses lugares antigos, mas falta acesso a essas informações. Também existem muitos locais abandonados e descuidados.”

A programação do lançamento

O evento de lançamento foi pensado como um encontro entre diferentes linguagens artísticas, reunindo história, artes visuais, teatro e música em torno de um único tema. A programação inclui:

  • Exposição dos desenhos originais que compõem a cartilha;
  • Palestra sobre preservação patrimonial, com o historiador José Augusto Carvalho dos Santos, chefe da Divisão Técnica do Iphan em Mato Grosso do Sul;
  • Intervenção cênica do espetáculo “Miragens do Asfalto”, do Teatro Imaginário Maracangalha;
  • Show da banda Alien Sputnik.

A combinação entre pesquisa acadêmica, arte visual, teatro e música ao vivo é parte da proposta do projeto: aproximar diferentes públicos de um patrimônio que, embora visível no dia a dia da cidade, segue pouco conhecido em sua história e relevância.

A continuidade de um projeto que já tem história própria

“Resquícios do Tempo: Complexo Ferroviário” não é um trabalho isolado, é a segunda edição de uma série criada por Sara Welter em 2021, com o objetivo de registrar e preservar memórias de espaços históricos de Campo Grande. A primeira publicação da série, “Resquícios do Tempo: Redescobrindo Campo Grande”, já havia sido exposta no Marco (Museu se Arte Contemporânea) durante o Festival Campão Cultural.

O projeto também já ganhou reconhecimento fora do estado: foi apresentado em São Paulo durante a 1ª Conferência Internacional das Tecnologias Sociais da Memória, realizada em novembro de 2025 — um indicativo de que o trabalho de Sara dialoga com discussões mais amplas sobre preservação de memória e patrimônio cultural no Brasil.

Como ela própria projeta para o futuro da série: “O objetivo do projeto Resquícios do Tempo é cada vez se ampliar mais com arte e história por vários lugares do Mato Grosso do Sul e do Brasil.”

Quem viabiliza o projeto

A iniciativa conta com investimento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura, com execução da Prefeitura de Campo Grande por meio da Fundação Municipal de Cultura (Fundac).

Por que essa cartilha interessa a quem ama o mato e a história de MS

No Aquele Mato, a gente sempre fala da natureza que faz de Mato Grosso do Sul um lugar único. Mas a história humana que construiu as cidades por onde essa natureza se espalha também merece atenção. E a ferrovia é, sem dúvida, um dos capítulos mais importantes dessa construção. Foi ela que trouxe gente, trabalho e cultura para regiões que hoje conhecemos pelas trilhas, pelos rios e pelo Pantanal.

Conhecer essa memória é também uma forma de entender melhor o território que a gente tanto explora.

Saiba mais sobre a história e a cultura de Campo Grande

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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