Existe uma injustiça bonita na história de Helena Meirelles: o mundo a descobriu antes do Brasil.
Em 1994, a revista americana Guitar Player elegeu Helena entre as 100 melhores instrumentistas do mundo de todos os tempos, ao lado de B. B. King, Eric Clapton, Keith Richards e Jimi Hendrix. Ela tinha 70 anos, morava no interior de Mato Grosso do Sul, era analfabeta, autodidata e nunca havia gravado um disco. O reconhecimento veio de fora, atravessou o oceano e só então chegou até ela.
Agora, mais de vinte anos após sua morte, Helena Meirelles ganha um novo retrato nas telas. O documentário “Helena Meirelles: Som & Cor do Pantanal” tem estreia nacional marcada para o dia 12 de agosto, às 18h, no MIS (Museu da Imagem e do Som) de Campo Grande. A data não é coincidência: seria o aniversário de 102 anos da artista.

A mulher que aprendeu viola escondida
Helena nasceu numa fazenda em meio ao Pantanal sul-mato-grossense, em agosto de 1924. Cresceu numa família de músicos habilidosos, e com menos de dez anos, num tempo em que mulher nenhuma tocava instrumento, aprendeu às escondidas e de forma autodidata a dedilhar a viola caipira.
O instrumento era proibido para ela, não por lei, mas por convenção. Numa época de rígidas expectativas sobre o lugar da mulher, a viola era território masculino. Helena ignorou essa fronteira da única forma possível: tocando em segredo, sozinha, até que o som que ela tirava das cordas ficou maior do que qualquer proibição.
Pioneira e destemida, Helena era compositora e multi-instrumentista. Enfrentou a resistência da família e da sociedade machista dos anos 1950 e 1960, e levou viola e talento para tocar com sua palheta feita de chifre de boi em tudo quanto é lugar: em bailes de roça, nos bordéis da região, nos barracões de chão de terra com teto feito de folha de acuri.
Parteira e rezadeira, teve 11 filhos, abandonou o marido que a proibia de tocar e foi dada por desaparecida pela família por 33 anos. Por mais de três décadas, continuou tocando polcas, chamamés e fandangos no interior do estado, sem saber que um dia o mundo a encontraria.
O sobrinho, a fita cassete e a Guitar Player
A virada na trajetória de Helena Meirelles começou com um gesto simples: um sobrinho enviou uma fita com gravações amadoras de Helena tocando viola para uma revista especializada dos Estados Unidos.
O que veio depois foi inesperado. A revista Guitar Player mudou a sua vida, elegendo-a entre as 100 melhores instrumentistas do mundo de todos os tempos. A repercussão foi imediata, e veio de fora para dentro. Só depois do reconhecimento internacional o Brasil passou a olhar com atenção para a violeira pantaneira que sempre esteve aqui.
Em 1994, ano em que completou 70 anos, a gravadora Eldorado lançou seu primeiro CD, “Helena Meirelles”, com composições de sua autoria como “Fiquei sozinha” e “Quatro horas da madrugada”, além do clássico “Chalana”. Era tarde, mas não era tarde demais. Os quatro discos lançados entre 1994 e 2002 venderam aproximadamente 100 mil cópias.
O editor da Guitar Player, Jas Obrecht, sintetizou o que muitos músicos sentiam ao descobrir Helena: “À sua maneira, foi Helena Meirelles tão talentosa e visionária quanto Segovia e Jimi Hendrix o foram a seu modo. Possui, sua música, espírito indominável, e as dádivas que ela nos legou ora já circundam o mundo, transportando e enlevando uma nova geração de ouvintes”.

O novo documentário
O filme que estreia no dia 12 é uma nova visão sobre essa história, diferente dos dois documentários anteriores que já retrataram a artista. Com imagens de arquivo, registros de apresentações e depoimentos de pessoas que conviveram com Helena, além de estudiosos, músicos e admiradores, a produção apresenta não só a artista, mas também a mulher: afetuosa, festeira, irreverente e espontânea, que fazia do cotidiano uma oportunidade para tocar.
É a terceira vez que Helena Meirelles chega às telas. Em 2004, teve sua história eternizada no documentário “Helena Meirelles – A Dama da Viola”, com direção de Francisco de Paula. Em 2006, foi homenageada com o documentário “Dona Helena”, dirigido por Dainara Toffoli. Cada produção revelou uma faceta diferente da artista, e juntas constroem um retrato que ainda está sendo completado.
O novo documentário traz o título “Som & Cor do Pantanal”, e a escolha não poderia ser mais precisa. A música de Helena era isso: os sons do Pantanal transformados em viola, a paisagem de MS convertida em melodia. Como disse a violeira Letícia Leal, da nova geração que se inspira em seu legado: “O som da Helena é único, porque ela conseguia trazer pro som dela a história de vida, do que ela tinha ao redor dela, lá em Mato Grosso. E é uma música que tem, por mais que seja instrumental, você percebe que ela tem uma história, uma conversa ali dentro, de perguntas e respostas”.
Um legado que ainda cresce

Helena Meirelles morreu em 2005, aos 81 anos, em Campo Grande. Em 2019, um museu foi inaugurado em Bataguassu — município onde nasceu — em sua homenagem, guardando as principais memórias da artista. Em 2013, venceu postumamente o Prêmio Rozini de Excelência da Viola Caipira. E no centenário do seu nascimento, em 2024, o Sesc São Paulo realizou uma programação especial em sua homenagem, reunindo violeiras de todo o Brasil para celebrar quem abriu o caminho.
Vinte anos depois da morte, o legado de Helena Meirelles não para de crescer. E o documentário que estreia no dia 12 é mais uma prova de que a maior violeira do Pantanal ainda tem muito a dizer.
SERVIÇO
📅 12 de agosto de 2026
🕖 18h
📍 MIS — Museu da Imagem e do Som de Campo Grande
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