Jaguatirica é flagrada predando filhote de tatu-canastra dentro da toca, em registro inédito no Pantanal
Fauna & Flora

Jaguatirica é flagrada predando filhote de tatu-canastra dentro da toca, em registro inédito no Pantanal

06 de agosto de 2026 4 min de leitura 1 visualizações

Câmeras do ICAS flagram, pela primeira vez em 16 anos de projeto, uma jaguatirica escavando toca e predando filhote de tatu-canastra em MS.

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Nem a toca, considerado o refúgio mais seguro do tatu-canastra, garante a sobrevivência dos filhotes da espécie. Pesquisadores do ICAS (Instituto de Conservação de Animais Silvestres) registraram, pela primeira vez em 16 anos de monitoramento, uma jaguatirica escavando a entrada de um abrigo em Mato Grosso do Sul e retirando de dentro dele um filhote de apenas 11 dias de vida.

O flagrante foi feito por armadilhas fotográficas instaladas em frente a tocas monitoradas pelo instituto e integra um estudo que o ICAS deve publicar em breve. Segundo Arnaud Desbiez, presidente e fundador da organização, a cena surpreendeu até quem acompanha a espécie havia mais de uma década: “nunca, em 16 anos de projeto, registramos algo parecido”.

O que as câmeras mostraram

Jaguartirica com filhote de tatu; reprodução ICAS

As imagens registram primeiro a fêmea de tatu-canastra deixando a toca para se alimentar de formigas e cupins, comportamento rotineiro da espécie, que é solitária e de hábitos noturnos. Antes de sair, ela fecha cuidadosamente a entrada do abrigo: usa as patas traseiras para jogar areia sobre o buraco e depois compacta o solo pressionando a cabeça contra a entrada.

Pouco depois, uma jaguatirica aparece, cava a terra que cobria a toca e retira o filhote com a boca. Para Desbiez, o episódio é duro, mas não deve ser lido como ameaça à espécie: “essa predação é uma tragédia, mas é um evento natural. Não é isso que ameaça o tatu-canastra”. Segundo ele, os riscos mais graves à conservação do animal continuam sendo a perda de habitat, as colisões em rodovias, os incêndios florestais e o envenenamento por pesticidas.

Por que um único filhote pesa tanto para a espécie

O tatu-canastra (Priodontes maximus) é o maior tatu do mundo e está entre os mamíferos mais ameaçados da América do Sul. As pesquisas do ICAS ao longo de 16 anos ajudaram a revelar aspectos da reprodução da espécie que a ciência ainda conhecia pouco: a maturidade sexual só chega entre 7 e 9 anos de idade, e cada fêmea tem apenas um filhote a cada 3 ou 4 anos.

O investimento parental também é longo, pois a cria é amamentada por cerca de nove meses, depende das tocas da mãe até aproximadamente os 15 meses e permanece no território materno por até quatro anos antes de seguir sozinha. Com um ciclo reprodutivo tão lento, cada nascimento tem peso desproporcional na manutenção da população. O estudo do ICAS também relata um segundo caso de provável predação, ocorrido durante a troca de abrigo entre uma fêmea e um filhote de cerca de 54 dias, reforçando que os primeiros meses de vida são o período mais crítico para a sobrevivência da espécie.

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O papel das armadilhas fotográficas

Segundo o ICAS, registros como esse só são possíveis graças ao monitoramento contínuo por câmeras instaladas nas entradas das tocas. Como o tatu-canastra é raro, solitário e ativo à noite, esse tipo de equipamento funciona como os “olhos” da equipe em campo, permitindo observar comportamentos que dificilmente seriam presenciados diretamente por um pesquisador.

O Programa de Conservação do Tatu-Canastra do ICAS acompanha a espécie há mais de 15 anos em áreas do Pantanal e do Cerrado de Mato Grosso do Sul, tendo publicado mais de 55 artigos científicos e ampliado, somente em 2025, o monitoramento para o Cerrado, a Mata Atlântica e a Amazônia. O instituto, fundado em MS pelo próprio Desbiez, também mantém o Bandeiras & Rodovias, projeto voltado à conservação do tamanduá-bandeira e à redução de atropelamentos de fauna silvestre nas estradas do Estado.

Por que isso interessa a quem visita o Pantanal e o Cerrado

Registros como este mostram por que o trabalho de monitoramento de longo prazo é tão valioso para a conservação: sem 16 anos de câmeras instaladas no mesmo tipo de abrigo, um comportamento raro como esse simplesmente não seria documentado. Para quem faz ecoturismo em áreas do Pantanal e do Cerrado sul-mato-grossense, esse tipo de pesquisa é o que sustenta, no fundo, a própria experiência de observar uma espécie tão emblemática e reservada quanto o tatu-canastra, e reforça por que proteger seu habitat, longe de rodovias e incêndios, segue sendo a prioridade para garantir que a espécie continue tendo filhotes para perder.

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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