Com o fim do pico da estiagem e a aproximação da janela ideal para o plantio de mudas e recuperação de áreas degradadas, produtores rurais e ambientalistas da região do Bolsão enfrentam um inimigo que avança sem ruído, mas deixa marcas profundas: o avanço fora de controle do javali (Sus scrofa) e do caramujo-gigante-africano (Achatina fulica).
A presença dessas espécies exóticas em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e em trechos de vegetação nativa do Cerrado e da Mata Atlântica tem frustrado projetos de reflorestamento, contaminado recursos hídricos e gerado prejuízos em série na bacia do Rio Paraná.
A destruição no solo: o rastro do javali

Originário da Eurásia, o javali (e seus cruzamentos com o porco doméstico, os “javaporcos”) está classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como uma das 100 piores espécies invasoras do planeta. No Bolsão, o comportamento dos animais é particularmente danoso para a recuperação ambiental.
Ao revolver o solo em busca de raízes, bulbos e insetos, os javalis destroem mudas recém-plantadas em projetos de restauração florestal. Além disso, o comportamento de “lameiro” — no qual se chafurdam em olhos-d’água e pequenos córregos — compacta o solo, assoreia nascentes e destrói os microhabitats de anfíbios e répteis nativos.
Segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o controle populacional por meio do abate autorizado é permitido no Brasil justamente pelo impacto devastador da espécie, que não possui predadores naturais suficientes na região para conter sua rápida reprodução.
Ameaça oculta: o impacto do caramujo-africano

Se o javali destrói pela força física, o caramujo-gigante-africano ataca a biodiversidade na base da cadeia alimentar. Introduzido ilegalmente no país nas décadas de 1980 e 1990 como alternativa ao escargot, o molusco adaptou-se com extrema facilidade às regiões de clima quente e úmido de Mato Grosso do Sul.
Nas APPs e nas matas ciliares, o caramujo atua como um herbívoro voraz. Ele devora brotos de espécies arbóreas nativas, impedindo a regeneração natural da floresta. Além do dano ecológico, o molusco representa um grave risco à saúde pública:
- Vetores de doenças: O Achatina fulica pode hospedar parasitas como o Angiostrongylus costaricensis (causador da angiostrongilíase abdominal) e o Angiostrongylus cantonensis (causador da meningite eosinofílica).
- Contaminação do solo e da água: A alta densidade populacional da espécie em calhas de rios e reservatórios pode comprometer a qualidade da água utilizada no abastecimento e na dessedentação de animais.
Desafios para o manejo no Bolsão
Para conter o avanço dessas pragas, especialistas apontam que ações isoladas em propriedades rurais não são suficientes. O Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) orienta que o manejo de espécies invasoras precisa ser integrado entre proprietários vizinhos e órgãos de fiscalização.
No caso dos javalis, o produtor rural precisa realizar o cadastro no Sistema de Informação de Manejo de Fauna (Simaf) para obter a autorização de controle. Já no caso do caramujo-africano, as recomendações técnicas exigem a catação manual com proteção (luvas) e o descarte por métodos adequados (como o uso de cal virgem), evitando o uso de venenos químicos que possam contaminar o lençol freático e a fauna nativa.
O restabelecimento do equilíbrio ambiental no Bolsão depende da contenção dessas espécies exóticas, garantindo que o esforço de recomposição da vegetação nativa consiga prosperar
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