Pantanal tem pior resultado do país em superfície de água, e Corumbá lidera perdas no Brasil
Conservação & Meio Ambiente

Pantanal tem pior resultado do país em superfície de água, e Corumbá lidera perdas no Brasil

18 de junho de 2026 6 min de leitura 1 visualizações

Levantamento do MapBiomas mostra que o bioma encerrou 2025 com 56% menos água que a média histórica, e Mato Grosso do Sul concentra a maior redução hídrica entre todos os estados brasileiros

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O Pantanal fechou 2025 com o pior resultado entre todos os biomas brasileiros em superfície de água, e colocou Mato Grosso do Sul no topo de um ranking que ninguém gostaria de liderar. 

Com a superfície de água 56% abaixo da média histórica, o Pantanal registrou o pior resultado entre os biomas do país e colocou o estado na liderança nacional de redução de áreas cobertas por água.

Os números são do estudo Panorama da Superfície de Água no Brasil (1985-2025), divulgado pelo MapBiomas nesta terça-feira (16).

Para quem ama o Pantanal como a gente, esses dados não são só estatística — são um retrato do que já era possível sentir em cada visita ao bioma nos últimos anos: rios mais baixos, corixos mais secos, paisagens que mudaram de forma visível.

Os números da perda

Mato Grosso do Sul registrou perda de 527 mil hectares de superfície de água em relação à média histórica, liderando o ranking nacional entre os estados. Mato Grosso aparece em seguida, com perda de 336 mil hectares. Juntos, os dois estados concentram a Região Hidrográfica do Paraguai, que teve redução de 53,8% da superfície de água, o equivalente a 877 mil hectares perdidos.

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Entre os municípios brasileiros, o impacto em MS é ainda mais evidente: Corumbá lidera o ranking nacional de perdas, com redução de 474 mil hectares, uma queda de 56,7% em relação à média histórica.

Na sequência do ranking nacional de municípios aparece Cáceres, em Mato Grosso, com redução de 189 mil hectares. Aquidauana também está entre os municípios mais afetados, com perda de 71 mil hectares, retração de 69,7%.

Os números por sub-bacia da região do Alto Paraguai em MS também impressionam: o Nabileque perdeu 147 mil hectares de superfície de água (-89%), o Taquari 02 teve redução de 219 mil hectares (-45,6%) e o Paraguai Pantanal 01 perdeu 276 mil hectares (-56,9%).

Uma melhora que ainda está muito abaixo do normal

Lindas paisagens de Alcinópolis

A boa notícia, dentro de um cenário ainda preocupante, é que 2025 não repetiu a seca histórica do ano anterior. Em 2025, a superfície de água do Pantanal alcançou 679 mil hectares, volume 34% superior aos 506 mil hectares registrados em 2024.

Ainda assim, o índice permanece distante da média histórica de 1,56 milhão de hectares observada entre 1985 e 2025.

E o ano não teve nenhuma trégua: o Pantanal foi o único bioma do país a registrar todos os meses de 2025 com superfície de água abaixo da média histórica. Outro dado chama atenção pela fragilidade que revela: atualmente, mais de 99% da água presente no Pantanal é de origem natural, o que torna o bioma ainda mais vulnerável às variações climáticas e hidrológicas, diferente de biomas como o Cerrado, que tem grande parte de sua superfície hídrica em reservatórios artificiais.

O que explica essa mudança

A pesquisadora Mariana Dias, da equipe Pantanal do MapBiomas, explica que o comportamento das águas no bioma vem se transformando ao longo das últimas décadas: 

Conforme a pesquisadora, “a dinâmica das águas no Pantanal mudou; a década de 80 foi marcada por grandes inundações, mas desde 2019 a região enfrenta secas prolongadas. Os períodos secos e úmidos são essenciais na manutenção da biodiversidade no bioma. A Bacia do Alto Paraguai e os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul refletem essa dinâmica registrada pela variação da água no bioma”.

O Pantanal perdeu mais de 1,7 milhão de hectares de vegetação nativa desde 1985, enquanto a atividade minerária avançou 60% e as áreas de pastagem quadruplicaram no mesmo período. Em 1985, a água cobria 24% do território do bioma; em 2024, ocupava apenas 3% da área.

A origem do problema está, em grande parte, fora da planície. A expansão das atividades agropecuárias no planalto — região onde nascem os rios que abastecem e inundam a planície pantaneira — tem impacto direto na redução das áreas alagadas. Em Mato Grosso do Sul, o planalto da Bacia do Alto Paraguai perdeu 2,1 milhões de hectares de vegetação nativa nos últimos 40 anos, uma redução de 40%, enquanto a área destinada à agricultura cresceu 5,9 vezes no mesmo período.

Cenário nacional também preocupa

Mesmo com sinais pontuais de recuperação, em 2025, quase metade dos municípios brasileiros — 45%, o equivalente a 2.511 cidades — registrou superfície de água abaixo da média histórica.

O Brasil registrou 18,2 milhões de hectares de superfície de água em 2025, alta de 5,3% em relação a 2024 — mas o volume permanece abaixo da média histórica de 18,5 milhões de hectares.

A análise por décadas reforça a tendência de queda: a média foi de 19,86 milhões de hectares entre 1985 e 1994, caiu para 18,71 milhões entre 1995 e 2004, para 18,16 milhões entre 2005 e 2014, e para 17,28 milhões entre 2015 e 2024.

Para o coordenador técnico do MapBiomas Água, Juliano Schirmbeck, o dado de um único ano não deve ser interpretado isoladamente: 

“Ao longo das últimas quatro décadas, observa-se uma tendência de redução da superfície de água no Brasil. Como se trata de um parâmetro naturalmente dinâmico, não podemos olhar apenas para o dado de 2025 de forma isolada.”

Por que isso importa para quem ama o Pantanal

O Pantanal é o coração da biodiversidade de Mato Grosso do Sul, onde araras, tuiuiús, onças-pintadas e ariranhas dependem diretamente do ciclo de cheias e secas para se alimentar, se reproduzir e se mover. Quando esse ciclo se desequilibra de forma persistente, o impacto não fica restrito ao rio: ele se propaga por toda a cadeia da vida selvagem que faz do Pantanal um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

Entender esses números é também uma forma de cuidar do mato que a gente tanto ama. A conservação de áreas como o Pantanal — incluindo iniciativas em andamento na região, como a proposta de criação do REVIS Delta do Salobra — é parte do esforço para reverter essa trajetória.

Quer conhecer mais sobre o Pantanal e sua fauna?

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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