Tem momentos que a natureza entrega. Sem aviso, sem roteiro. Lucas Souza estava com a câmera na mão, olhando pelo visor, quando um vulto chegou rápido. Por um instante, pensou que fosse briga. Disparou duas ou três fotos por reflexo — e só depois percebeu o que havia registrado: o acasalamento de um casal de gavião-de-penacho.
“Confesso que na hora levei um susto. Só depois percebi que estava diante do acasalamento do casal de gavião-de-penacho. Foi um daqueles momentos que a natureza nos presenteia de forma totalmente inesperada. O registro ficou incrível, mas para mim, a experiência de presenciar a cena valeu ainda mais do que as imagens”, conta Lucas.
O encontro não foi obra apenas do acaso, foi resultado de meses de monitoramento paciente e diário na Reserva Cunhataí-Porã, em São José do Rio Claro (MT). E veio acompanhado de uma descoberta igualmente significativa: o primeiro ninho de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) já registrado na propriedade.

A descoberta e o monitoramento
Lucas Souza trabalha como guia e pesquisador na reserva há mais de dez anos, com foco especial no monitoramento de fauna e felinos por câmeras trap. Avistamentos de gavião-de-penacho já eram comuns em diferentes trechos da propriedade, inclusive nas proximidades do lodge. Mas o início do ciclo reprodutivo da espécie no local era algo inédito.
Desde que o ninho foi encontrado, Lucas passou a monitorar o casal diariamente, em dois períodos distintos, a partir de um ponto estratégico que ele identificou na mata. “Encontrei um ponto a cerca de 40 metros do ninho, de onde consigo observar o casal sem ser percebido”, explica.
O trabalho é feito ao lado de Iraceldo Luiz de Cézaro, o “Gauchinho”, empresário e proprietário da reserva, que acompanha o processo com o mesmo entusiasmo.
Além da observação direta, Lucas busca orientação de outros pesquisadores e profissionais da área para garantir que o monitoramento seja conduzido com rigor científico. “Neste primeiro momento, o mais importante é acompanhar todo o processo reprodutivo do casal sem causar interferência, reunindo o máximo de informações possível”, afirma.
O horizonte vai além do monitoramento imediato. “Espero que no futuro todo esse material possa servir de base para estudos e artigo científico, bem como palestras e ações de educação ambiental. Acredito que compartilhar esse conhecimento é uma forma de valorizar a conservação da espécie e mostrar a importância da Reserva Ecológica Cunhataí-Porã como um ambiente seguro para a reprodução do gavião-de-penacho”, finaliza Lucas.
Quem é o gavião-de-penacho

Para entender por que essa descoberta importa, é preciso conhecer a ave que está no centro dela.
O gavião-de-penacho é considerado uma das aves de rapina mais imponentes do Brasil. Em razão do porte e das características singulares, também é conhecido como águia-de-penacho — e há inclusive uma manifestação do ornitólogo Willian Menq, responsável pelo canal Planeta Aves, para que esse passe a ser o nome vernacular oficial da espécie.
Mede entre 58 e 65 centímetros, com as fêmeas sendo maiores e mais pesadas do que os machos. O penacho negro ereto na cabeça, a plumagem marrom no pescoço e a cauda longa fazem dele uma ave inconfundível para qualquer observador que tenha a sorte de cruzar com ela na mata.
Distribuição: ocorre desde o sul do México até o Paraguai e o norte da Argentina. No Brasil, pode ser encontrado em quase todas as regiões, exceto nas áreas mais secas do Nordeste e nos pampas gaúchos. É uma ave florestal por natureza, e fora da Amazônia é considerada ameaçada de extinção.
Reprodução: constrói o ninho no topo de árvores que podem atingir até 30 metros, formando uma grande plataforma de galhos na bifurcação da copa. O único ovo é incubado por até 50 dias. O filhote só abandona o ninho por volta dos 80 dias de vida, e mesmo depois continua recebendo cuidados dos pais por mais de um ano. Isso faz com que a espécie tenha um intervalo mínimo de dois anos entre um ciclo reprodutivo e outro, tornando cada ninho ativo um evento raro e valioso para a ciência.
Uma espécie rara e ameaçada

O gavião-de-penacho não é comum. A espécie já está ameaçada de extinção na Mata Atlântica e consta na lista da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN). O desmatamento e a fragmentação das florestas reduzem progressivamente os territórios que o casal precisa para caçar, nidificar e criar o filhote.
Uma das formas mais eficientes de estudar o Spizaetus ornatus na natureza é acompanhar os ninhos que ele forma no período reprodutivo. Por isso, pesquisadores tentam mapeá-los para desenvolver estudos que ajudem a evitar sua extinção. No Brasil, o gavião-de-penacho já foi monitorado em outras reservas, incluindo a RPPN Vale do Bugio, em Corguinho, Mato Grosso do Sul, onde o Instituto Mamede acompanhou um casal com apoio do WWF-Brasil. Cada ninho encontrado é uma fonte insubstituível de dados sobre comportamento, reprodução e território da espécie.
O que a Cunhataí-Porã representa
A Reserva Cunhataí-Porã já recebia avistamentos frequentes de gavião-de-penacho — o que por si só é um sinal de que o ambiente está preservado o suficiente para sustentar um predador de topo da floresta. A descoberta do ninho vai além: confirma que a reserva não é apenas passagem, mas território reprodutivo ativo da espécie.
E esse é, talvez, o maior valor do registro de Lucas Souza. Não apenas as fotografias do acasalamento, que são raras e impressionantes. Mas a evidência concreta de que aquela mata específica, naquele município específico de Mato Grosso, é um lugar onde o gavião-de-penacho escolheu continuar existindo.
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