Há uma boa notícia vinda do Pantanal, e ela merece ser contada com cuidado, sem exagero, mas também sem subestimar o que representa.
Em 2025, o Pantanal registrou a menor área queimada em 41 anos de monitoramento: apenas 121 mil hectares atingidos pelo fogo, uma redução de 85,6% em relação à média histórica do bioma. Foi a maior queda proporcional entre todos os biomas brasileiros, segundo a segunda edição do Relatório Anual do Fogo no Brasil, divulgado hoje pelo MapBiomas.
“A queda interrompe uma sequência de anos de expansão do fogo e devolve o país a um patamar historicamente mais baixo de área queimada”, avalia a organização no relatório.
Para quem acompanhou o Pantanal queimar em 2020 — quando o bioma perdeu mais de 4 milhões de hectares, o equivalente a mais de 26% de toda sua extensão — e viu os anos seguintes repetirem cenas de fumaça e animais fugindo, essa notícia tem um peso especial.
Os números que importam

A queda de 2025 é expressiva em qualquer contexto. Os 121 mil hectares queimados contrastam com uma média histórica de 840 mil hectares por ano no bioma, o que significa que o Pantanal queimou, no ano passado, apenas uma fração do que costuma queimar.
Mas há um dado que contextualiza e relativiza o otimismo: metade ou mais da vegetação atingida no bioma apresentou severidade alta ou muito alta. Isso significa que, embora a extensão tenha caído drasticamente, as chamas que ocorreram causaram danos mais intensos do que a média nacional. Onde o fogo entrou, entrou fundo.
Outro número que persiste independentemente da boa notícia de 2025: mais de 80% de toda a área queimada historicamente no Pantanal atingiu vegetação nativa. A proporção é semelhante no Cerrado e contrasta com o que acontece na Amazônia e na Mata Atlântica, onde o fogo ocorre principalmente em áreas já modificadas pela ação humana, como pastagens.
Corumbá: a cidade que carrega o peso do histórico

A boa notícia de 2025 não apaga um registro que permanece: Corumbá lidera o ranking nacional de área queimada acumulada desde 1985, ao lado de São Félix do Xingu, no Pará.
O município concentra grande parte do Pantanal sul-mato-grossense e, ao longo de quatro décadas de monitoramento, acumulou uma das maiores extensões de vegetação destruída pelo fogo em todo o Brasil. Esse dado não é uma crítica à cidade — é um retrato da vulnerabilidade estrutural de um bioma que depende do equilíbrio entre cheias, secas e fogo para existir, e que nas últimas décadas tem enfrentado esses fatores em desequilíbrio crescente.
Como já reportamos aqui no Aquele Mato, Corumbá também liderou o ranking nacional de perda de superfície de água em 2025, com redução de 56,7% em relação à média histórica. São dois rankings que ninguém quer liderar, e que juntos pintam um retrato difícil da realidade pantaneira.
E o resto do Brasil?
A melhora não foi só no Pantanal. Em todo o Brasil, 12,7 milhões de hectares queimaram em 2025, ou seja, 31% abaixo da média histórica anual de 18,4 milhões de hectares, e quase a metade da área registrada em 2024.
A redução foi puxada principalmente pela Amazônia, que passou de 15,8 milhões de hectares queimados em 2024 — o maior número da série histórica — para apenas 3,1 milhões em 2025, o menor resultado já registrado no bioma.
Já o Cerrado segue como o bioma mais atingido pelo fogo no país. Foram 8,7 milhões de hectares queimados em 2025, próximo à média anual de 9,6 milhões. E o bioma acumula outro dado preocupante: desde 1985, 66% de tudo que já foi atingido pelo fogo no Cerrado queimou mais de uma vez.
A pesquisadora Vera Laísa Arruda, do MapBiomas Fogo e do IPAM, alerta para o risco dessa frequência: “Quando esse regime se intensifica, aumentam os riscos de perda de biodiversidade e degradação do bioma.”
Uma boa notícia que pede cuidado
O resultado de 2025 é um sinal positivo, mas não é uma vitória definitiva. O Pantanal ainda enfrenta uma seca histórica, com umidade do ar atingindo 10% em algumas regiões neste julho e o estado de Mato Grosso do Sul em emergência ambiental por 180 dias. Os focos de incêndio desta temporada seca já começam a aparecer nas bordas do bioma.
O que 2025 mostrou é que é possível reverter uma tendência, e que as políticas de prevenção, as brigadas de combate a incêndios e o trabalho das comunidades locais fazem diferença real quando são colocados em prática de forma consistente.
Preservar o que foi conquistado em 2025 vai exigir o mesmo esforço — ou mais — no ano que está começando a queimar.