Araras-canindés resgatadas em Campo Grande ajudam a UFMS a mapear doenças que ameaçam a espécie
Conservação & Meio Ambiente

Araras-canindés resgatadas em Campo Grande ajudam a UFMS a mapear doenças que ameaçam a espécie

01 de julho de 2026 5 min de leitura 3 visualizações
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Três araras-canindés resgatadas em Campo Grande estão sendo monitoradas por uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) que investiga 11 agentes infecciosos — entre vírus, bactérias e um fungo — capazes de comprometer a saúde da espécie e, em alguns casos, também a de quem trabalha diretamente com elas.

O objetivo é simples de enunciar e trabalhoso de executar: garantir que as aves resgatadas voltem à natureza sem levar doenças para as populações silvestres.

O estudo é conduzido no Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres) da Capital, onde chegam, quase sempre feridas, as araras-canindés vítimas de colisões, linhas de cerol, descargas elétricas ou tráfico de animais silvestres. Em Campo Grande, essas aves não são visitantes ocasionais: fazem parte da paisagem urbana, com uma população que já ultrapassa 400 indivíduos entre araras-canindés e araras-vermelhas, segundo o Instituto Arara Azul. A espécie Ara ararauna é a Ave-Símbolo da Capital desde 2015, e a cidade carrega oficialmente, desde 2021, o título de Capital das Araras, o que torna a saúde dessas aves um assunto que interessa a qualquer morador, não só a quem estuda fauna silvestre.

 Uma dissertação de mestrado com aplicação prática imediata

A pesquisa é conduzida pela médica veterinária Jordana Toqueto, que atua no Cras desde 2022 e desenvolve o trabalho como dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da UFMS. O estudo, batizado de “Detecção molecular de agentes infecciosos em araras-canindés (Ara ararauna)”, começou a coletar amostras em junho, depois de autorização do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul). Até agora, três aves, entre jovens e adultas, estão sendo acompanhadas; a meta é chegar a cerca de 100 exemplares ao longo de um ano, conforme forem admitidas no centro.

Para rastrear a origem das infecções, a equipe coleta amostras da cavidade oral, da cloaca e do sangue das araras, analisadas pela técnica de PCR (reação em cadeia da polimerase), capaz de identificar o material genético de vírus, bactérias e fungos a partir de quantidades mínimas de amostra.

Ao todo, são rastreados 11 agentes: os vírus poxvírus, circovírus, bornavírus, poliomavírus, herpesvírus, adenovírus e papilomavírus; as bactérias Chlamydia psittaci, Salmonella spp. e Mycoplasma spp.; e o fungo Aspergillus spp.

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Trabalho é questão de Saúde Única

Jordana enquadra o trabalho no conceito de Saúde Única, que trata a saúde animal, ambiental e humana como uma coisa só — o que uma arara carrega no sangue pode dizer algo sobre o ambiente em que ela vive, e vice-versa. Um dos focos principais da pesquisa é a Chlamydia psittaci, bactéria causadora da psitacose, uma zoonose que pode infectar humanos, principalmente profissionais que fazem o manejo direto das aves. Segundo a pesquisadora, isso não significa risco para quem simplesmente vê uma arara sobrevoando a cidade. A atenção está concentrada em quem lida de perto com o manejo dos animais, como veterinários e tratadores.

Outro agente que exige cuidado redobrado é o circovírus, causador da circovirose. Se detectado, o animal precisa ficar isolado e não pode mais ser devolvido à natureza, porque o vírus pode se espalhar para outros psitacídeos, como papagaios, periquitos e calopsitas, presentes na mesma região.

Qual é o maior impacto no trabalho de reabilitação

O maior impacto prático do estudo deve recair sobre o próprio protocolo de reintrodução do Cras. Com os dados da pesquisa, a expectativa de Jordana é chegar a um protocolo sanitário que oriente com mais precisão quando uma ave está de fato apta a ser solta, reduzindo o risco de devolver ao ambiente um animal ainda capaz de transmitir doenças a populações sivestres.

Os resultados também devem funcionar como um retrato das principais doenças que afetam araras-canindés atendidas em centros de reabilitação, informação que pode ajudar veterinários e pesquisadores de fauna silvestre de outras regiões do país que lidam com o mesmo desafio.

Uma pesquisa sobre a cidade que também é Pantanal

Vale lembrar que a saúde de uma ave que sobrevoa avenidas e se equilibra em postes de energia na nossa Capital não é um assunto isolado do resto do estado: o que acontece com a arara-canindé urbana funciona como termômetro do ambiente que ela — e nós — dividimos, da poluição sonora e luminosa às linhas de cerol e à fiação exposta.

Para quem quer ver de perto essa convivência entre cidade e fauna silvestre, os pontos de observação de araras espalhados por Campo Grande já são parte do roteiro de quem busca ecoturismo urbano na nossa região Central, mostrando que conservar espécies emblemáticas de Mato Grosso do Sul começa, muitas vezes, na própria vizinhança.

aquelemato
Colaborador · AqueleMato
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