Uma fêmea de pelagem quase completamente preta foi fotografada no Caiman Pantanal, em Miranda (MS), em fevereiro de 2021 — e o que era lenda entre os pantaneiros virou ciência em agosto de 2026. Pesquisadores da Associação Onçafari e da Embrapa Pantanal publicaram o primeiro registro científico de melanismo em Blastocerus dichotomus, o cervo-do-pantanal, no periódico Notas sobre Mamíferos Sudamericanos. O animal existe. Acontece que ninguém havia documentado até agora.
O estudo reuniu três indivíduos melânicos confirmados: a fêmea de Miranda, fotografada pela equipe do Onçafari, e dois machos localizados no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa de Minas Gerais com a Bahia, monitorados entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026. Os autores são Diogo Santana, Carlos Fragoso, Marcos Brito, Taile Nascimento e Daniel Silveira Filho, todos vinculados ao Onçafari, com coautoria de Walfrido Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal em Corumbá.
O que é o melanismo — e por que é tão raro no cervo-do-pantanal
Melanismo é uma condição genética caracterizada pela produção excessiva de melanina, o pigmento responsável pela coloração da pelagem. No caso do cervo-do-pantanal, cuja coloração normal é vermelho-castanha, o melanismo resulta em um animal de aparência quase preta — que é exatamente o que os pantaneiros descreviam há décadas sem que a ciência conseguisse registrar.
A raridade do fenômeno no Pantanal é documentada pelos próprios pesquisadores: em 40 anos de monitoramento de uma população de 40 mil indivíduos, apenas um registro surgiu. A frequência é de menos de 1 em 40 mil — o que o artigo enquadra, sem exagero, como evento de escala excepcional. No Cerrado, onde a população de cervo-do-pantanal está criticamente ameaçada de extinção, os dois machos encontrados no Grande Sertão Veredas representam proporção ainda mais rara dentro de um estoque já dramaticamente reduzido.
Por que o melanismo ocorre ainda é questão em aberto. Os pesquisadores levantam a hipótese de que o isolamento geográfico e a endogamia — cruzamento entre indivíduos aparentados — podem facilitar a expressão de características genéticas recessivas raras como essa. Mas não há explicação definitiva, e o artigo registra o fenômeno sem estabelecer causa.

O registro em Miranda: o que aconteceu no Caiman Pantanal
O primeiro registro científico aconteceu em 26 de fevereiro de 2021, quando pesquisadores do Onçafari que trabalhavam no Caiman Pantanal — reserva particular em Miranda, no Pantanal Sul de Mato Grosso do Sul — avistaram e fotografaram uma fêmea adulta com pelagem escura. O animal foi visto em campo aberto, o suficiente para eliminar qualquer dúvida sobre a coloração.
O Caiman Pantanal é uma das áreas de pesquisa e ecoturismo mais ativas do Pantanal sul-mato-grossense, conhecida pelos programas de monitoramento de onça-pintada conduzidos pelo próprio Onçafari. É nesse contexto de cobertura sistemática da fauna que a fêmea melânica foi encontrada — e que o registro pôde ser feito com rigor suficiente para sustentar uma publicação científica.
Da lenda à ciência: décadas de relatos que a biologia finalmente ouviu
O “veado preto” não é novidade para quem vive no Pantanal. Relatos de peões, pescadores e moradores antigos sobre um cervo de pelagem escura circulavam há décadas, tratados pela maioria dos pesquisadores com o ceticismo que se aplica a histórias sem registro fotográfico. Um indício de que o animal existia antes de qualquer câmera: a Baía do Cervo Preto, localizada próxima à Estação Ecológica de Taiamã, em Cáceres (MT), cujo nome preserva a memória oral de avistamentos anteriores.
A lenda é real. A ciência confirma pela primeira vez a existência do veado preto no Pantanal.
Título do artigo publicado na revista Notas sobre Mamíferos Sudamericanos, agosto de 2026
Essa dinâmica — saber popular precede o registro científico — é mais comum do que a academia costuma admitir em ecossistemas de difícil acesso como o Pantanal. Populações que convivem com a fauna por gerações acumulam observações que simplesmente ainda não foram fotografadas no momento certo. No caso do veado preto, foram pelo menos décadas de relatos até que uma câmera estivesse no lugar certo na hora certa.
O que a descoberta muda para a conservação do cervo-do-pantanal
No Pantanal, a população de cervo-do-pantanal é considerada estável — o bioma é um dos últimos grandes refúgios da espécie no Brasil, com estimativas de dezenas de milhares de indivíduos. A descoberta do melanismo não altera esse diagnóstico. O que muda é o entendimento da diversidade genética dentro da espécie: a existência de variantes raras como o melanismo indica um repertório genético mais amplo do que se supunha.
No Cerrado, o cenário é mais urgente. O cervo-do-pantanal está criticamente ameaçado de extinção nesse bioma, com populações fragmentadas e sob pressão constante do avanço agropecuário. Os dois machos melânicos encontrados no Grande Sertão Veredas vivem em uma das poucas áreas de cerrado ainda protegidas no país — e a descoberta de indivíduos com variação genética rara reforça o argumento para a manutenção e ampliação da proteção dessas áreas.
Para o ecoturismo científico, a notícia tem impacto direto. O Caiman Pantanal, onde o primeiro registro foi feito, já é destino consolidado de observação de fauna em MS. A possibilidade — remota, mas real — de avistar um cervo-do-pantanal melânico adiciona um elemento novo ao que a região oferece para naturalistas e birdwatchers.
O estudo
- Título: “First ever records of melanism in Marsh deer Blastocerus dichotomus“
- Autores: Diogo L. L. D. Santana, Carlos E. Fragoso, Marcos R. M. Brito, Taile E. S. Nascimento, Daniel A. da Silveira Filho (Onçafari) e Walfrido M. Tomas (Embrapa Pantanal)
- Publicação: Notas sobre Mamíferos Sudamericanos, agosto de 2026
- Local do primeiro registro: Caiman Pantanal, Miranda (MS) — 26 de fevereiro de 2021
- Embrapa Pantanal: embrapa.br/pantanal
- Onçafari: oncafari.org
Deixe um comentário