Setembro chegou e, com ele, algo que quem mora em Campo Grande vai começar a notar mais: cobras nos quintais, lagartos atravessando calçadas, e uma movimentação de fauna que não estava ali ontem. Não é invasão. É primavera.
Na última semana, três jiboias foram avistadas numa rua do Jardim Veraneio, em plena luz do dia. Uma fêmea de maior porte, dois machos menores, um deles já em cópula. A PMA foi acionada, mas quando chegou ao local, as serpentes já haviam seguido seu caminho. Para quem passou pela rua, susto. Para quem entende de fauna do Cerrado, cena esperada.
“Primavera tem mais que flores, tem o Carnaval das espécies”, explica a bióloga Paula Helena Santa Rita, do GRETAP (Grupo de Resgate Técnico Animal Cerrado Pantanal).
O que é o Carnaval das Espécies
O nome é informal, o fenômeno é real. Com a chegada da primavera, temperaturas mais amenas, noites mais longas e as primeiras chuvas depois do inverno seco, várias espécies da fauna do Cerrado entram no pico do período reprodutivo simultaneamente.

Para as jiboias, esse momento significa uma mudança de comportamento clara: os machos ficam mais ativos e percorrem distâncias maiores do que o habitual em busca de fêmeas, rastreadas pelos feromônios que elas liberam. É esse deslocamento extra que os coloca com mais frequência em calçadas, garagens, jardins e vielas, lugares que normalmente não fazem parte do seu território cotidiano.
Campo Grande é a maior capital do Centro-Oeste em área, mas mantém extensa cobertura vegetal que funciona como corredor ecológico entre fragmentos de Cerrado. Para a jiboia, esses corredores são exatamente o que precisam para se deslocar, e a malha urbana que avançou sobre o Cerrado é o que coloca as serpentes cada vez mais em contato com moradores.
Quem é a jiboia do Cerrado
A subespécie presente em Mato Grosso do Sul é a Boa constrictor amarali — a jiboia cinzenta, distinta da jiboia amazônica (Boa constrictor constrictor) tanto no tamanho quanto na coloração. Enquanto a amazônica pode chegar a 4 metros, a Boa constrictor amarali não ultrapassa os 2,4 metros de comprimento e apresenta coloração predominantemente cinza ou marrom, com alguns indivíduos quase pretos, como uma adaptação ao Cerrado.
O nome jiboia vem do tupi-guarani yi’mboya, e a serpente carrega essa origem há séculos na fauna do Brasil Central. As jiboias não são cobras peçonhentas: não possuem presa inoculadora de veneno e matam suas presas por constrição, envolvendo o corpo com força muscular até causar sufocamento. Para o ser humano, não representam perigo quando não são provocadas.
A jiboia se alimenta de mamíferos de pequeno e médio porte como cotias, pacas e capivaras, além de aves. Ocorre próxima a cursos d’água e nada e escala muito bem. Em ambiente urbano, o cardápio se adapta: ratos e pombos são presas frequentes, o que faz da jiboia uma aliada natural no controle de pragas nos bairros onde o Cerrado residual ainda existe.
O serviço ecológico que o susto esconde
A jiboia não é apenas uma cobra grande que assusta. É uma das principais controladoras naturais de roedores no Cerrado, e por extensão nos bairros de Campo Grande onde fragmentos do bioma ainda persistem entre as casas.
A conta é simples: menos jiboias, mais ratos. E os ratos não ficam só nos matagais — eles entram em casas, contaminam alimentos e transmitem doenças. A jiboia que aparece no quintal, portanto, pode estar prestando um serviço que o morador nem imagina estar recebendo.

Um número que preocupa
O Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) registrou que 11% dos registros de serpentes na área urbana de Campo Grande resultaram em animais feridos ou mortos. Uma taxa expressiva considerando que a grande maioria desses encontros poderia terminar sem nenhum dano ao animal, se as pessoas soubessem como agir.
A desinformação sobre jiboias é parte do problema. Muitas pessoas acreditam que a jiboia é venenosa durante alguns meses do ano, mas isso não é verdade. As jiboias não apresentam glândulas de veneno nem dentes inoculadores em nenhuma época do ano. O mito do “veneno sazonal” já custou a vida de muitos animais que morreram simplesmente por terem aparecido no lugar errado, na hora errada, para quem não sabia o que estava vendo.
O que vai acontecer daqui a alguns meses
A fertilização que ocorre agora, no início da primavera, vai gerar filhotes entre novembro e fevereiro. Após uma gestação que varia de 127 a 249 dias, nascem de 8 a 55 filhotes por ninhada, medindo de 25 a 50 cm de comprimento. São vivíparas, os filhotes nascem já formados, não em ovos.
Isso significa que entre o final do verão e o início do outono, Campo Grande pode registrar um segundo pico de avistamentos, desta vez de jiboias jovens, menores e ainda mais fáceis de ser confundidas com outras espécies.
O que fazer ao encontrar uma jiboia
A orientação da PMA e do GRETAP é direta: calma, distância e ligação para os especialistas.
- Não tente capturar, ferir ou afugentar com vassouras, pás ou qualquer objeto;
- Mantenha crianças e animais domésticos afastados do local;
- Se a serpente estiver em área verde sem risco imediato, o mais indicado é simplesmente observar e deixar que siga seu caminho;
- Se estiver dentro de casa ou em local de risco, acione a PMA.
Polícia Militar Ambiental (PMA): (67) 3941-0141 — ligação ou WhatsApp
Campo Grande e o Cerrado que mora dentro dela
O Carnaval das Espécies é, no fundo, um lembrete de que Campo Grande não é uma cidade com parques e reservas no entorno. É uma cidade que cresceu dentro do Cerrado e que, por isso, carrega dentro dos seus bairros uma diversidade de fauna que a maioria das capitais brasileiras já perdeu há décadas.
A jiboia que aparece na rua do Jardim Veraneio não invadiu nada. Ela está onde sempre esteve. A cidade é que chegou depois.
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