Em quatro décadas, nosso estado destruiu o equivalente a 26 vezes a área do município de Bonito em Cerrado nativo. A cobertura que restou é de apenas 23,6% do território do bioma em MS. Os números são da Coleção 11 do MapBiomas, divulgada na última semana.
O que foi perdido — e o que tomou o lugar
A formação savânica sofreu a maior queda proporcional: 69%, reduzindo de 3,26 milhões para cerca de 1 milhão de hectares. As formações florestais perderam 50% em termos absolutos — 3,66 milhões de hectares a menos. Campos alagados e áreas pantanosas recuaram 53%.
No total, a agropecuária — pastagem, agricultura, silvicultura e seus mosaicos — passou de 10,2 milhões para 16,83 milhões de hectares, ocupando hoje cerca de 75,7% do Cerrado sul-mato-grossense. Nos últimos dez anos, a agropecuária perdeu 1,81 milhão de hectares de pastagem nesse território — mas esse espaço não voltou para a mata. Foi para a soja e para o eucalipto.
“É preciso aumentar a produtividade nas áreas já convertidas, sem avançar sobre o que sobrou”, afirmou Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM e pesquisadora da equipe Cerrado do MapBiomas.
Por que isso afeta o ecoturismo em MS
O Cerrado é a caixa d’água dos rios da Serra da Bodoquena e de parte das nascentes que alimentam os principais destinos de turismo de natureza em Mato Grosso do Sul — entre eles o Rio da Prata, em Jardim, e as nascentes do Rio Formoso, em Bonito. A perda de vegetação nas cabeceiras afeta a regularidade do fluxo d’água e a transparência característica desses rios.
A última seca do Rio da Prata — que secou por 5 km em agosto e só recuperou o fluxo com as chuvas de outubro — é citada por pesquisadores como um sintoma do desequilíbrio hídrico regional, agravado pela redução da cobertura vegetal nas cabeceiras. O Ministério Público de MS investiga as causas desde 2024.
O que muda na prática
A pesquisadora Bárbara Costa recomenda três frentes urgentes: proteger o que resta, recuperar conexões entre fragmentos e priorizar as nascentes do planalto, que alimentam o Pantanal. MS concentra cerca de 17% da área agropecuária de todo o Cerrado, mas apenas 5% da vegetação nativa remanescente do bioma.
Conservar o Cerrado que sobrou não é apenas uma pauta ambiental — é condição para manter o ecoturismo que movimenta a economia do nosso estado. Sem as nascentes saudáveis da Serra da Bodoquena, não há rios cristalinos em Bonito ou Jardim.
Fontes
MapBiomas Coleção 11 (dados 1985–2025). Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM e pesquisadora da equipe Cerrado do MapBiomas. Campo Grande News, 07/10/2026.
Os dados completos estão disponíveis em mapbiomas.org. Para conhecer destinos de ecoturismo que dependem da saúde do Cerrado, acesse Bonito-Serra da Bodoquena →
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