No mesmo dia em que Campo Grande completa 127 anos, o Pantanal recebe um presente: 50 novas mudas de árvores essenciais para a sobrevivência da arara-azul-grande, o símbolo mais icônico do bioma sul-mato-grossense.
A ação acontece nesta quarta-feira (26), a partir das 7h, na Fazenda Caiman, em Miranda, propriedade que mantém parceria com o Instituto Arara Azul desde 1998 e que se consolidou ao longo de quase três décadas como uma das áreas mais importantes para a reprodução da espécie em ambiente natural. O plantio é uma iniciativa do Instituto Arara Azul e conta com apoio do Projeto Água Vida, do Zoo de Zurich e da própria Fazenda Caiman.

O manduvi e a dependência da arara
Entre as mudas plantadas hoje, uma merece atenção especial: o manduvi (Sterculia apetala), também conhecido como amendoim-de-bugre ou amendoim-de-arara. A árvore não é apenas mais uma espécie nativa do Pantanal, ela é estrutural para a reprodução da arara-azul.
As cavidades naturais que se formam no tronco do manduvi são o principal local de nidificação da arara-azul-grande no Pantanal. Sem essas cavidades, o casal não consegue criar os filhotes. E sem filhotes, a população não se recupera.
“O manduvi é fundamental para a preservação da ave. Porém, a quantidade de árvores dessa espécie vem diminuindo com as queimadas e é importante recuperar esse número”, afirma Mario Barila, fotógrafo e fundador do Projeto Água Vida, que realizará o plantio.
Além do manduvi, a dieta da arara-azul depende principalmente de dois frutos: o acuri e a bocaiuva, palmeiras nativas do Pantanal que também integram o plantio.
“Com os incêndios recorrentes no Pantanal e os impactos das mudanças climáticas, a arara-azul e seu habitat vêm enfrentando novos desafios. A espécie depende de poucas árvores para fazer seus ninhos, especialmente o manduvi. A doação de mudas pelo Projeto Água Vida fortalece esse trabalho de recuperação do ambiente e a formação do Bosque das Araras”, afirma Eliza Mense, diretora-executiva do Instituto Arara Azul.
Por que esse plantio acontece agora

A ação chega dois meses depois de a arara-azul-grande retornar à lista nacional de espécies ameaçadas de extinção, em junho de 2026. O retorno à lista foi um sinal de alerta: mesmo após décadas de trabalho de conservação que a tiraram do risco crítico, a combinação de incêndios cada vez mais intensos, perda de habitat e mudanças climáticas voltou a comprometer a população da espécie.
O plantio também dá continuidade ao trabalho iniciado em outubro de 2025, quando foi criado o primeiro Bosque das Araras, em Bonito, um marco do esforço de restauração de vegetação essencial para a arara em diferentes regiões de MS.
Como já mostramos aqui no Aquele Mato, o MS lidera a contagem nacional de araras-azuis, com 409 registros na primeira edição do Big Day das Araras-Azuis. Mas liderar esse ranking também significa ter a maior responsabilidade pela sobrevivência da espécie.
O plantio que vai além da Caiman
Depois de Miranda, Mario Barila segue viagem para a Aldeia Tomázia, no território indígena do povo Kadiwéu, conhecidos como “os índios cavaleiros do Pantanal”. No local, também serão plantados manduvis e árvores frutíferas pantaneiras.
A escolha das espécies para o território Kadiwéu tem uma lógica dupla: as frutíferas podem ser aproveitadas pela própria comunidade como fonte de alimento, enquanto os manduvis contribuem para recuperar a vegetação importante para a fauna da região, incluindo as araras que habitam o entorno.
Barila ainda realizará um ensaio fotográfico com indígenas caracterizados com pinturas tradicionais de festa e seus cavalos, imagens que integrarão o acervo do Projeto Água Vida, cuja comercialização financia as ações socioambientais da iniciativa.
“Cada árvore plantada é também uma oportunidade de devolver à fauna um pouco do espaço que ela perdeu. Quando se trata da arara-azul, recuperar as árvores que oferecem alimento e locais para seus ninhos é ajudar a preservar todo um ecossistema”, afirma Barila.
Uma data que une dois aniversários
Que o plantio aconteça neste 26 de agosto não é detalhe. Campo Grande completa 127 anos hoje, e a arara-azul é parte indissociável da identidade da capital e do estado. Vê-las sobrevoando a avenida Afonso Pena ao entardecer é uma das cenas mais icônicas da cidade. Garantir que as próximas gerações também possam ter esse encontro começa com gestos como esse: 50 mudas plantadas no Pantanal, hoje, no dia em que a cidade que as ama faz aniversário.
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