A narrativa histórica sobre o surgimento de Campo Grande costuma focar na figura de um único personagem: o mineiro José Antônio Pereira.
No entanto, uma iniciativa apresentada na Câmara Municipal promete corrigir uma lacuna secular e reescrever a memória oficial da Capital Morena.
O projeto de lei propõe declarar oficialmente Maria Carolina de Oliveira e Eva Maria de Jesus (a icônica Tia Eva) como cofundadoras de Campo Grande, reconhecendo o protagonismo feminino e a contribuição da população negra no estabelecimento e no desenvolvimento do município.
A proposta mantém o reconhecimento histórico a José Antônio Pereira, mas expande a titularidade da fundação para refletir a verdadeira dinâmica social que ergueu a cidade no final do século 19.

Quem foram as pioneiras que moldaram a cidade?
Maria Carolina de Oliveira: a força oculta do povoamento
Casada com José Antônio Pereira, Maria Carolina fez a árdua travessia de Minas Gerais até o sul do então Mato Grosso unificado. Longe de ser apenas uma “figura secundária” ou acompanhante, ela exerceu papel ativo na organização comunitária, na subsistência das primeiras famílias e na articulação da infraestrutura básica do povoado que começava a se formar na confluência dos córregos Prosa e Anhanduí. Sua liderança doméstica e comunitária foi fundamental para a fixação das famílias pioneiras no local.
Eva Maria de Jesus (Tia Eva): fé, cura e liderança libertária

Ex-escravizada nascida em Goiás, Eva Maria de Jesus conquistou a alforria no final do século 19 e migrou com suas filhas para a região de Campo Grande. No local onde se estabeleceu, fundou uma comunidade de resistência que deu origem ao Quilombo Tia Eva, o primeiro território quilombola urbano do Brasil a ter sua igrejinha e patrimônio reconhecidos pelo Iphan.
Benzedeira, parteira, professora e líder espiritual venerada, Tia Eva não apenas tratou da saúde dos primeiros moradores da cidade, como também estabeleceu um polo de solidariedade e fé com a construção da Igreja de São Benedito (origem da tradicional Festa de São Benedito, celebrada desde 1919).
Um ato declaratório de justiça e identidade
Caso seja aprovada pelos vereadores, a mudança terá caráter declaratório e simbólico-cultural. Na prática, o texto não altera limites territoriais, aspectos administrativos ou direitos de propriedade, mas transforma a forma como a história de Campo Grande é ensinada nas escolas, representada nos monumentos e preservada nos documentos oficiais.
A proposta é vista por historiadores, ativistas e lideranças comunitárias como um passo decisivo de reparação histórica. Reconhecer Tia Eva e Maria Carolina ao lado dos nomes masculinos já consagrados é uma forma de validar as múltiplas vozes, especialmente as femininas e negras, que ajudaram a pavimentar o caminho até a metrópole atual.
Conecte-se com a história viva da nossa cidade!
Quer conhecer de perto os locais marcados pela trajetória de Tia Eva e pela fundação de Campo Grande?
- Visite a Igreja de São Benedito e a Comunidade Quilombola Tia Eva, localizadas na zona norte da cidade.
- Conheça o Parque Horto Florestal, na confluência dos córregos onde as primeiras famílias se fixaram.
- Use o aplicativo Corixo para mapear rotas culturais urbanas, registrar suas visitas aos patrimônios históricos e monitorar seu tempo de desconexão e imersão na cultura de Mato Grosso do Sull.
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