Dois anos. Esse é o tempo que o rio da Prata, em Jardim, vive com uma investigação aberta sobre quem jogou sedimentos em suas águas. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) mantém três propriedades rurais no inquérito civil instaurado em outubro de 2024, enquanto uma quarta já firmou acordo e pagou a conta.
O caso começou com fotografias que rodaram o estado: água cristalina rio acima e cor de barro abaixo, no encontro do rio da Prata com o rio Verde, em Jardim. A transparência que faz do Prata um dos destinos de flutuação mais procurados de Mato Grosso do Sul estava ameaçada e alguém precisaria responder por isso.
O que as vistorias encontraram

A Polícia Militar Ambiental e o MPMS identificaram um conjunto de problemas nas propriedades investigadas: deficiência de mata ciliar (a vegetação que protege as margens dos rios), presença de gado em Áreas de Preservação Permanente (APPs), erosões, voçorocas e sinais de assoreamento. No total, as autuações chegaram a R$ 185 mil.
A Fazenda Jangada (New Hope) concentra a acusação mais grave: gradeamento inadequado para pastagem e remoção de vegetação em área protegida permitiram que sedimentos chegassem a um córrego sem nome, alcançassem o Rio Verde e de lá o Prata. A defesa alega que a propriedade tinha autorizações ambientais e já adotou medidas de controle. A multa foi de R$ 100 mil.
A Fazenda Orion (CFL Agro) foi autuada após a PMA encontrar bovinos dentro de APP em julho de 2024, com sinais visíveis de pisoteio e erosão. Em vistoria de 2025, o cenário havia mudado: animais retirados, cercas reforçadas e vegetação em regeneração natural. Multa: R$ 5 mil.
A Fazenda Lago Azul tem outro ponto de discussão. Fiscais encontraram três estruturas (de 71 a 85 metros) dentro de APP que classificaram como drenos sem autorização. O arrendatário diz que são curvas de nível para conservação do solo, um argumento que o MPMS rejeitou ao negar o pedido de arquivamento em julho de 2026.
A fazenda que acertou as contas
A Fazenda Nossa Senhora Aparecida fechou sua parte do processo. Autuada em agosto de 2024 pelo desmatamento de 14 hectares de área úmida na Reserva Legal, a propriedade assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com R$ 70 mil de indenização, além de uma multa adicional de R$ 70 mil. O pagamento foi parcelado em 12 vezes. O arquivamento foi homologado em agosto de 2026.
E como fica o Ecoturismo?
O rio da Prata é coluna vertebral do ecoturismo em Jardim. Atrativos como o Recanto Ecológico Rio da Prata e a Lagoa Misteriosa dependem da transparência da água, e a transparência depende, entre outras coisas, da mata ciliar que segura os sedimentos nas margens.
A promotora Laura Alves Lagrota já propôs o arquivamento da investigação geral em agosto de 2026, o que sinalizaria o fim formal do inquérito. A decisão final cabe ao Conselho Superior do MPMS.
Enquanto isso, as três fazendas restantes continuam respondendo, e o rio da Prata segue cristalino, por enquanto.
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