O maior tatu do mundo acaba de ganhar uma data oficial no calendário de Mato Grosso do Sul.
A Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS) aprovou nesta quinta-feira (6), em primeira discussão, o Projeto de Lei 76/2026, que institui o 13 de agosto como Dia Estadual do Tatu-Canastra. A iniciativa busca ampliar ações educativas e chamar atenção para a preservação de uma espécie que, apesar de ser o maior tatu do planeta, é tão rara e esquiva que a maioria das pessoas nunca vai ver uma na natureza — mesmo morando no estado que abriga uma das principais populações do animal no Brasil.
O projeto segue para segunda discussão antes da votação final.

Um engenheiro do ecossistema que poucos conhecem
O tatu-canastra (Priodontes maximus) pode chegar a 1,5 metro de comprimento — incluindo a cauda — e pesar até 60 quilos. É o maior tatu do mundo e uma das espécies mais emblemáticas da fauna sul-americana. Apesar do porte, é um animal extremamente tímido, noturno e solitário, e dorme mais de 19 horas por dia. Quem o vê na natureza considera um evento raro.
O que o torna ainda mais fascinante é o papel que desempenha no ecossistema. O tatu-canastra é uma espécie fossorial, passa a maior parte do tempo sob a terra em tocas de sua própria construção, que podem ter até 5 metros de profundidade e 35 cm de largura.
Essas tocas não são apenas o lar do tatu. Suas tocas servem de refúgio para mais de 100 espécies de vertebrados e 300 espécies de invertebrados, criando micro-habitats que promovem a biodiversidade. Um estudo do IPÊ realizado no Pantanal sul-mato-grossense identificou pelo menos 24 espécies de vertebrados se beneficiando diretamente das cavações do tatu, usando as tocas como refúgio térmico, abrigo contra predadores, área de alimentação ou de descanso.
Por isso, o tatu-canastra é reconhecido como um verdadeiro engenheiro ambiental, um daqueles animais cuja presença sustenta uma rede inteira de vida ao redor.
MS como laboratório de pesquisa

O projeto de lei aprovado hoje destaca especificamente as pesquisas realizadas pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS) no Pantanal e no Cerrado de Mato Grosso do Sul — e com razão. O Programa de Conservação do Tatu-Canastra nasceu no Pantanal em 2010, na Fazenda Baía das Pedras, na sub-região da Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul.
Desde então, o ICAS expandiu o monitoramento para o Cerrado e para a Mata Atlântica, usando armadilhas fotográficas e GPS para revelar a ecologia e os hábitos de uma espécie até então pouco estudada. Os resultados já publicados revelaram informações inéditas sobre dieta, reprodução, movimentação e interações ecológicas do animal, dados que hoje fundamentam as políticas de conservação da espécie no Brasil e no mundo.
A situação preocupante no Cerrado de MS
A criação de um dia estadual dedicado ao tatu-canastra chega em um momento oportuno porque a situação da espécie, especialmente no Cerrado, é mais grave do que parece.
A população do tatu-canastra diminuiu em 30% nos últimos 24 anos, de acordo com estimativa do ICMBio. Na Lista Vermelha da IUCN, é classificado como espécie vulnerável.
No Pantanal sul-mato-grossense, a espécie ainda tem populações relativamente estáveis. Já no Cerrado de MS, o cenário é mais urgente. “Sabíamos que, no Pantanal, a viabilidade da espécie não estava ameaçada a curto prazo. Mas no Cerrado, pelo que líamos e víamos, sabíamos que a situação era urgente. A primeira pergunta que queríamos fazer foi: existe ainda tatu-canastra no Cerrado do Mato Grosso do Sul?”, disse Arnaud Desbiez, fundador do ICAS.
Os motivos do declínio são conhecidos: perda e fragmentação de habitat pelo desmatamento, incêndios florestais, atropelamentos em rodovias e caça. Mesmo escondido a 5 metros de profundidade na toca que escava, o tatu não fica protegido do fogo e pode morrer de calor ou sufocado pela fumaça.
Há ainda um detalhe que torna a situação ainda mais delicada: o tatu-canastra não é encontrado em cativeiro, o que significa que qualquer esforço de conservação precisa acontecer na natureza — não há rede de segurança em zoológicos ou criadouros.
Estar no calendário faz a diferença

Criar o Dia Estadual do Tatu-Canastra em 13 de agosto pode parecer um gesto simbólico, e é, em parte. Mas datas comemorativas têm um papel concreto na conservação: mobilizam escolas, prefeituras, imprensa e sociedade civil em torno de um tema, criam gatilhos para campanhas de educação ambiental e mantêm o assunto vivo no debate público.
Para uma espécie que, como o tatu-canastra, pode desaparecer sem que ninguém perceba — dada sua raridade, seus hábitos noturnos e sua timidez extrema —, visibilidade é uma ferramenta de conservação tão importante quanto a pesquisa científica.
Como estado que abriga o maior programa de pesquisa sobre a espécie no mundo e que tem no Pantanal e no Cerrado dois dos últimos refúgios viáveis do animal, MS tem um papel central nessa história. O 13 de agosto, se aprovado em definitivo, vai lembrar isso todo ano.
Quer conhecer mais sobre a fauna ameaçada de Mato Grosso do Sul?