Onçafari completa 15 anos com quase 100 animais devolvidos à natureza e 125 mil hectares protegidos
Conservação & Meio Ambiente

Onçafari completa 15 anos com quase 100 animais devolvidos à natureza e 125 mil hectares protegidos

10 de agosto de 2026 5 min de leitura 0 visualizações

ONG que pioneirou a reintrodução de onças-pintadas no mundo celebra uma década e meia de atuação em quatro biomas brasileiros; a Iniciativa Rios da Onça conecta Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai num corredor ecológico continental

Publicidade

Quinze anos atrás, a ideia de devolver uma onça-pintada órfã à natureza parecia improvável. Hoje, ela é realidade comprovada e virou referência internacional.

O Onçafari chega ao seu aniversário de 15 anos com números que contam uma história de paciência, ciência e aposta genuína no potencial de convivência entre conservação, ecoturismo e comunidades locais. Ao longo desta década e meia, a organização garantiu a conservação de 125.131 hectares de áreas protegidas em reservas próprias que servem de habitats críticos para a fauna silvestre e devolveu à natureza 99 animais entre 2011 e 2026.

Reprodução Onçafari Foto Edu Fragoso

Da onça à anta, do tucano ao jabuti

A lista de espécies reintroduzidas pelo Onçafari é mais diversa do que o nome da organização sugere. Entre os animais devolvidos à natureza estão onça-pintada, onça-parda, lobo-guará, anta, macaco-prego, tucano, tuiuiú, paca e jabuti, um repertório que mostra como a missão foi crescendo ao longo dos anos, saindo do foco exclusivo nos felinos para abraçar a biodiversidade mais ampla dos biomas onde a ONG atua.

No entanto, o marco mais simbólico continua sendo o dos felinos. A ONG protagonizou a primeira reintrodução bem-sucedida de onças-pintadas do mundo com as irmãs Isa e Fera, que já contam quase 30 descendentes, comprovando a viabilidade de devolver felinos órfãos ou resgatados ao seu habitat natural. Um feito que abriu caminho para que outros projetos de reintrodução de grandes felinos ao redor do mundo passassem a usar o modelo brasileiro como referência.

Os números de 15 anos de monitoramento

Reprodução Onçafari

Por trás de cada animal reintroduzido existe uma estrutura científica robusta. Com 10 recintos especializados para adaptação e soltura de fauna, a ONG já publicou 37 artigos acadêmicos e mantém mais de 300 armadilhas fotográficas ativas espalhadas pelos biomas onde atua.

Os dados de avistamento acumulados ao longo dos anos revelam a escala do trabalho de campo: até 2025, foram registrados 9.468 avistamentos de onças-pintadas na Caiman Pantanal. No Cerrado, o monitoramento contínuo na Pousada Trijunção somou 2.122 avistamentos de lobo-guará entre 2019 e 2025.

Publicidade

Esses números importam muito além da estatística. Cada avistamento registrado é um dado científico que alimenta a pesquisa sobre comportamento, território e reprodução das espécies, e que fundamenta decisões de conservação em escala muito maior do que uma única reserva.

Presente em quatro biomas — incluindo o Pantanal sul-mato-grossense

Ariranha reprodução Onçafari

Atualmente presente em quatro dos mais estratégicos biomas brasileiros — Pantanal, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica —, a organização expandiu sua atuação para mais de 20 bases de operação distribuídas pelo Brasil, além de manter escritórios administrativos em São Paulo e Brasília.

No Pantanal sul-mato-grossense, o Onçafari tem presença histórica. A Caiman Ecological Refuge, em Miranda, foi onde o projeto ganhou forma e onde as primeiras reintroduções aconteceram — tornando a região de Miranda um dos destinos mais reconhecidos do mundo para o avistamento de onças-pintadas em ambiente natural.

Para quem acompanha o Aquele Mato, esse nome é familiar: a região do Rio Miranda, onde o Onçafari atua, é também onde documentamos encontros com Ibaca, Ipepo e outras onças que fazem da planície pantaneira um dos últimos grandes santuários de vida selvagem do planeta.

A Iniciativa Rios da Onça: pensar além das fronteiras

O projeto mais ambicioso do Onçafari para os próximos anos vai muito além das fronteiras do Brasil. A organização lidera no Brasil a Jaguar Rivers Initiative (Iniciativa Rios da Onça), aliança internacional que conecta Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai. O projeto visa proteger e restaurar corredores ecológicos ao longo da Bacia do Rio Paraná, utilizando as matas ciliares como vias naturais de fluxo para a fauna continental e promovendo o desenvolvimento socioeconômico sustentável das populações locais.

A lógica por trás da iniciativa é simples e poderosa, como explica o CEO e fundador da ONG, Mario Haberfeld: “Os animais não conhecem fronteiras: eles atravessam rios, florestas e diferentes territórios. Por isso, a solução para a conservação também precisa ser sem fronteiras.”

Num contexto em que a Rota Bioceânica aproxima cada vez mais o MS da Argentina, da Bolívia e do Paraguai, essa iniciativa ganha uma camada a mais de relevância para o estado.

Reconhecimento global num ano de incêndios

O aniversário de 15 anos chega num momento de dupla simbologia. De um lado, o reconhecimento internacional: em 2026, a organização obteve reconhecimento global no Fórum Econômico Mundial, na Suíça, sendo destacada pela Schwab Foundation como referência em empreendedorismo social. No Brasil, figura há dois anos no ranking das 100 Melhores ONGs do país, tendo sido eleita a melhor na categoria Meio Ambiente e Sustentabilidade em 2025.

Do outro lado, a urgência: o Pantanal enfrenta em 2026 uma das piores temporadas de incêndios dos últimos anos, com a área queimada no MS crescendo 770% no primeiro semestre em comparação ao mesmo período de 2025. O Onçafari atua também nessa frente — na prevenção e combate a incêndios florestais, a organização forma brigadas comunitárias, instala aceiros e realiza monitoramento contínuo por satélite.

Quinze anos de história, quase 100 animais de volta à natureza, e o Pantanal ainda precisando de cada um deles.

Quer conhecer mais sobre a fauna do Pantanal e as iniciativas de conservação em MS?

aquelemato
Colaborador · AqueleMato

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade